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quinta-feira, setembro 11, 2003

A razão do ecumenismo (2ªparte) 

Há ainda um outro factor extremamente importante: o factor político.
Desde o aparecimento das sociedades organizadas, dos primeiros estados, há uma questão fundamental que se tem colocado e que é imprescindível para a estabilidade das organizações sociais: qual é a origem do poder num estado, qual a sua fonte de legitimação?
Actualmente, nas sociedades democráticas modernas esta questão não se coloca estando resolvida de um modo estritamente secular. Mas na Antiguidade não era assim. O poder tinha de ser forte para a sociedade ser estável mas por outro lado não conseguia ser naturalmente absoluto. Estando esse poder assente na força havia sempre limites: limites dentro desse próprio estado, limites impostos por estados vizinhos. Ou seja, se no estado o poder não era nem podia ser verdadeiramente absoluto apesar de, por natureza, o pretender ser, então a questão da sua fonte de legitimação, da sua origem, era crucial para poder ser aceite como tal pela sociedade assegurando assim a sua perenidade.
É aqui que a religião, ou melhor as religiões, tiveram e ainda continuam a ter um papel crucial. Papel crucial mas também biunívoco e, há que dizê-lo, também equívoco: se por um lado a religião, legitimando o poder o justifica podendo por isso condicioná-lo, o simples facto de isso ser possível também vai condicionar a religião na sua natureza intrínseca para não falar do facto do próprio Poder ter um interesse activo em influenciar e condicionar a religião e as suas superestruturas eclesiásticas. Daqui vem certamente o conceito de Religião de Estado, hoje tão em desuso no mundo Ocidental mas ainda muito presente noutras áreas do globo.
Esta tem sido uma longa história sobre a qual é interessante reflectir.
A íntima relação entre política e religião existia já naquilo que chamei de pré-história religiosa. A cabeça do estado, corporizada no rei, era como que um intermediário entre os homens e os deuses. No caso dos faraós, essa intermediação era justificada pela sua própria natureza divina. Era a cabeça do estado que tinha sido escolhida pelos deuses, que conhecia os seus desígnios, que partilhava a sua natureza e que intercedia pelos homens. Na Suméria, berço da nossa civilização, os reis das cidades-estados eram sempre filhos de deuses ou deusas. Temos pois que a legitimação religiosa do poder no estado era algo linear e eficaz: a extraordinária duração da civilização egípcia assentou em elevado grau neste processo sistemático de legitimação do poder real.
Com as novas religiões de cunho ético, o Judaísmo, o Zoroastrismo, o Hinduísmo, o Budismo, o Cristianismo, o Islamismo, a questão da relação entre a religião e a política ganhou uma complexidade muito maior mas nem por isso perdeu importância.
Como vimos, estas novas religiões trouxeram a noção que cada homem, criado à imagem e semelhança de Deus, tem dentro de si uma natureza divina, a alma. Ou seja somos todos filhos de Deus e portanto irmãos entre nós. Não há pois entre nós indivíduos especiais que intermedeiam a relação dos homens com Deus e que por esse facto tem autoridade secular sobre eles. A relação passou a ser entre cada homem e Deus. A questão é se o Homem alguma vez esteve preparado para assumir inteiramente esta relação directa: eu diria que, normalmente, não está nem nunca esteve.
Por outro lado, Deus, para irmos ao Seu encontro, para atigirmos o Seu conhecimento pleno, isto é, sermos salvos, revelou-nos um padrão de comportamento, uma dimensão ética para a existência do homem. Essa dimensão ética foi recebida por aqueles que viveram as Revelações, foi posta a escrito por gerações de discípulos e seguidores, foi ganhando uma parcela cada vez maior no conteúdo, na doutrina de cada Fé, foi também alvo de acrescentos, interpretações, adaptações e como é óbvio foi penetrando crescentemente na ética humana e social das sociedades até a dominar quase totalmente.
Ou seja, se os princípios éticos revelados por Deus se foram constituindo como a ética social vigente então, inevitavelmente, o poder do estado foi-se adaptando e se associando à Fé por forma a utilizar essa ética como instrumento de estabilidade social com vista à sua própria preservação. Mais ainda, assumindo-se o estado como defensor da ética revelada por Deus, passou então a assumir um papel de defensor da Fé, um papel de verdadeiro agente escolhido por Deus ao serviço do Seu projecto de salvação humana. Estava então encontrado o novo processo de legitimação do poder do estado.
Neste contexto, criaram-se sempre ligações profundas entre os estados e as estruturas eclesiais que suportam as religiões, dada a enorme convergência de interesses entre ambos: o estado procura legitimação e estabilidade social, a igreja procura fazer chegar a mensagem revelada a toda a sociedade e que esta aceite essa mensagem e viva em seu nome.
Um caso paradigmático é a relação entre o império romano e a emergente igreja cristã. (continua...)

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