<$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, setembro 26, 2003

A razão do ecumenismo (3ªparte) 

A Igreja Cristã, cuja forma inicial tudo deve a S.Paulo, que transformou de cima abaixo aquilo que não iria passar de mais uma seita judaica, começou por se desenvolver capilarmente no vastíssimo Império Romano, já numa altura em que ele começava a ser cada vez menos romano e cada vez mais império, absorvendo e tolerando todas as culturas e religiões que ia abarcando com a sua formidável expansão.
Aliás, a tolerância religiosa romana merece ser analisada até porque vem desde a génese da república e expansão romanas, contrariamente à imagem popularmente difundida durante séculos. Fez sempre parte essencial da natureza pragmática dos romanos a capacidade de adquirirem e utilizarem as técnicas civis ou militares, as culturas, as organizações políticas dos povos por eles vencidos ou dominados desde que se revelassem superiores às suas próprias. Da mesma forma e como povo supersticioso que era, os romanos nunca tiveram pejo em adoptar e adaptar deuses de outros povos e acrescentá-los ao seu panteão, quanto mais não fosse para disporem também da sua protecção nas sortes das armas. Quando a simplória república romana engoliu de um trago a Grécia e a sua sofisticadíssima civilização e cultura, imensamente superiores às suas, os romanos absorveram e adoptaram praticamente toda a mitologia grega exactamente da mesma forma que adoptaram formas arquitectónicas, técnicas militares, expressões artísticas, etc. Curiosamente não adoptaram o caótico sistema político grego esse sim francamente inferior à república romana.
Enquanto a expansão não desromanizou Roma, a sua república foi com efeito um sistema político fantásticamente estável, com processos de legitimação de poder e de tomada de decisões de Estado verdadeiramente únicos e que claudicaram apenas quando a expansão territorial se tornou de tal forma grande que os tornou obsoletos pelo simples necessidade absoluta de uma autoridade centralizada e durável a qual nunca teria sido possível com o sistema multipolar da república e com os seus consulados anuais.
E foi na sequência duma crise, que durou mais de um século, que os romanos encontraram um outro sistema político, centrado na figura do imperador, que lhes deu mais 3 séculos de expansão e outros mais de existência. Esse sistema contudo tinha lacunas essenciais quanto a aspectos tão básicos como a legitimação do poder imperial e a sua transmissão ou sucessão. Foi logo na sua primeira fase, com a dinastia julio-claudiana e as sua autoproclamada ascendência à deusa Vénus que se começou a resolver esta questão. O imperador foi considerado como pré-divino em vida e plenamente divino após a sua morte, havendo sempre alguém socialmente prestigiado a apresentar-se como testemunho da ascenção do imperador morto aos céus, condição formal para que pudesse ser considerado divino.
É pois a partir daí que a dimensão religiosa ganha uma função reforçada na legitimação e consequentemente na estabilidade política do Império. E esta foi a fonte primeira das escaramuças iniciais com a Igreja Cristã: para a autoridade imperial ser inquestionada e inquestionável era necessário que a sua natureza divina fosse aceite e isso era algo que monoteístas como os judeus não o poderiam nunca fazer. É de notar que no início não havia uma percepção clara da distinção entre judeus e cristãos. Ora o facto da religião judaica ser a religião dum povo e não uma religião universalista e como tal proselitista, tornava a sua ameaça ao império irrelevante e portanto foi totalmente tolerada. Os problemas surgem quando se percebe o carácter distinto da religião cristã sobretudo porque universalista e, como tal, uma ameaça à estabilidade do império: os cristãos não só negavam a divindade imperial como, ao espalhar a mensagem de Cristo e fazendo novos convertidos, faziam outros negá-la.
Seja como for, com mais ou menos perseguições, que variavam consoante o ambiente político, a Igreja foi-se organizando, a mensagem do evangelho foi sendo aceite por cada vez mais cidadãos do império. Repare-se que a enorme dimensão e complexidade do império romano e as frequentes crises de sucessão imperial, tornavam difícil uma repressão sistemática e consistente aos cristãos, que também por isso se foram multiplicando.
Acontece inclusivé que durante largos períodos houve colaboração activa entre a Igreja e o Império. Este, mais do que hoje se poderá pensar, era claramente sub-administrado, ou seja nunca teve uma estructura administrativa forte que assegurasse de forma integrada as funções básicas de administração: colecta de impostos, obras públicas, etc. Para isso o Império apoiava-se fortemente nas confrarias ou congregações, normalmente de natureza profissional mas também confessional. Foi aqui que a Igreja quis e soube desempenhar um importante papel que lhe assegurou largos períodos de tolerância imperial e para o qual tinha uma utilidade enorme a sua organização celular em dioceses governadas por bispos, a existência por todo o império de grandes espaços físicos de reunião e comunhão de pessoas (as basílicas) e, por último, o estatuto de certa forma paternal do clero cristão perante os fiéis. Ou seja, a Igreja Cristã foi-se tornando numa organização de forte coerência interna, com uma motivação comum e que, estando espalhada crescentemente por todo o Império, lhe podia prestar inestimáveis serviços. Foi com efeito nestes tempos primordiais que nasceu uma atitude da Igreja que perdurou até hoje, pela qual a melhor forma de assegurar a propagação da mensagem divina nas melhores condições era a postura de colaboração com o poder enquanto ele não afrontasse ostensivamente os princípios cristãos.
É claro que houve regressões com períodos de grande repressão: o período de Diocleciano foi um deles. E foi-o porque num período de grande instabilidade política, este imperador criou o sistema da tetrarquia, com dois Augustos e dois Césares, emulando assim a governance do Olimpo pela parelha Zeus-Hércules e buscando assim, duma forma mais reforçada, legitimação à velha religião romana. Temos pois que esses períodos de repressão normalmente eram gerados por mudanças políticas no estado imperial e não por reacções deste a excessos ou posições de afrontamento vindas da Igreja.
É um facto muito curioso e pouco conhecido que as famosas perseguições aos primeiros cristãos se dirigiram não tanto à Igreja cristã institucional e ortodoxa mas muito mais às numerosas correntes e seitas heréticas saídas do cristianismo e que essas sim, muitas vezes por interpretações mais extremas e desequilibradas da mensagem de Cristo, chegaram a afrontar a estabilidade social do Império: foram os irenistas, os donatistas, os arianistas, todas as correntes gnósticas, etc.
O facto é que enquanto a Igreja se ia fortalecendo e expandindo, o Império Romano, esmagado pelas massas migratórias de povos bárbaros e sem nunca ter resolvido satisfatóriamente a questão fundamental da legitimidade imperial e respectivos mecanismos de sucessão, ia-se desagregando inexoravelmente em ciclos sucessivos de altos e baixos consoante a qualidades dos seus imperadores. Curiosamente, durante e após o término definivo deste processo de desagregação houve sempre duas atitudes na sociedade do império face ao Cristianismo: uns culpavam-no da decadência de Roma, outros refugiavam-se no seu seio para alcançarem serenidade e segurança naqueles tempos crepusculares.
Ora a determinada altura, apareceu um imperador, Constantino, que emergiu do colapso duma tetrarquia e que, devido a uma capacidade excepcional, conseguiu estabilizar o império. Este imperador teve a percepção que a Igreja Cristã poderia ser um aliado providencial nos seus desígnios e alterou profundamente o estatuto da Igreja Cristã, transformando o Cristianismo, pela primeira vez na história deste, em religião de Estado. Curiosamente, fê-lo antes de ele próprio se ter convertido, tal era o seu pragmatismo. Esta transformação da Igreja Cristã de entidade perseguida a elemento estruturante do Império Romano, modificou de forma profunda e irreversível a sua natureza. (continua...)

This page is powered by Blogger. Isn't yours?