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quarta-feira, setembro 17, 2003

Religião e Política 

Tem-se discutido por aí a relação Religião-Política e, tal como Aviz menciona, o tom e conteúdo da discussão são (mais uns) sinais da profunda, espessa e generalizada ignorância sobre a natureza do fenómeno religioso bem como sobre as Histórias das Religiões e da Humanidade. São, infelizmente, também sintoma da terrível superficialidade com que hoje se discutem todo o tipo de assuntos. O acesso cada vez mais fácil à comunicação (não só à recepção da mesma, mas agora com os fórums, com os blogues, também à própria emissão da dita), se por um lado expõe de forma mais gritante a tal ignorância, por outro também a estimula de certa forma. Fiquemos por aqui, pois não é disto que quero falar.
É evidente que Religião e Política não são nem nunca foram dissociáveis. As próprias naturezas intrínsecas de ambas a isso levaram e continuam a levar. Agora acontece que as relações entre ambas são múltiplas, complexas, biunívocas, por vezes subtis e imperceptíveis, outras vezes evidentes e mutuamente opressivas. É pois extremamente pobre reduzir a relação entre a Religião e Política a dicotomias como a da esquerda/direita, dicotomias essas tão recentes na História.
Por outro lado, dado que a ignorância sobre as religiões fora do perímetro judaico-cristão ocidental é ainda mais incomensurável, não há geralmente a percepção que a relação Religião-Política depende muitíssimo de que Religião e de que espaço civilizacional ou geopolítico estamos a falar.
A Religião Cristã tem na sua matriz original a separação do religioso e do secular. Frases de Jesus como “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” ou “O meu reino não é deste mundo” permaneceram ao longo da História como marco da essência da fé cristã, mesmo em tempos em que a Igreja o quis esquecer. A associação vulgarmente pressentida entre a fé cristã e as atitudes politicamente conservadoras tem muito menos a ver com a sua essência do que com mecanismos históricos de preservação do poder político e social em que as elites utilizaram a fé como instrumento de estabilização social, muitas vezes com a cumplicidade activa ou passiva da Igreja Católica, Protestante ou Ortodoxa.
Essa cumplicidade, tantas vezes incompreendida e criticada mesmo pelos próprios Cristãos, embora tenha tido certamente, em muitas ocasiões, motivos que nada tem a ver com a Fé, resulta fundamentalmente de algo que quase toda a gente se foi esquecendo e que é a própria natureza da Religião: a Fé, a Religião não tem a ver com este Mundo, tem a ver com o nosso caminho para Deus, com a nossa Salvação; já a Revolução, essa procura a salvação neste mundo, para todos os homens e se possível já para amanhã, o que é certamente generoso, louvável e apoiável. Todavia, a Religião trata de coisas inteiramente diferentes, dá ao Homem bens totalmente diversos daqueles que a chamada Esquerda entende serem devidos à partida a todos os Homens. Seguramente que a Igreja tem pensado de forma recorrente que se os Homens se focarem na Revolução, tenderão a esquecer a sua própria Redenção (é tão fácil esquecê-la...). É também evidente que as forças mais reaccionárias se tem querido apoiar neste código genético da Religião e que o tem utilizado por vezes de formas preversas e terríveis. Contudo, uma má utilização que se faz da Fé não retira a sua natureza essencial embora possa afastar e afasta inevitavelmente as pessoas de Deus.
Outro factor que tem contribuído fortemente para dicotomias erradas é algo que é essencial na Fé Cristã e que é cada vez mais difícil de entender para larguíssimas franjas da nossa sociedade: a atitude perante o sofrimento. Toda a gente hoje acha que o sofrimento humano pode e deve ser evitado. É opinião generalizada que a Fé Cristã acha, de forma conformista, que o sofrimento faz parte da vida e portanto deve ser tolerado. Como tal os cristãos, ou melhor a Igreja, é acusada de servir de travão contra o progresso humano pois não luta contra todas as formas de sofrimento.
Acontece porém, que a Fé Cristã, originada de alguém que aceitou dar a vida por nós, alguém que apesar de Filho de Deus aceitou sofrer para nos salvar, tem também como mensagem essencial a noção de que o sofrimento, sendo muitas vezes inevitável, pode ser redentor, pode ser criativo, pode tornar-nos melhores, pode aproximar-nos de Deus.
Claro que esta noção é escandalosa nos tempos que correm, particularmente para a Esquerda, generosa que é na sua natureza, mas o facto é que, se não crermos nisto, o sofrimento que nos pode acontecer a todos e de tantas maneiras, tornar-nos-á seguramente piores, mais miseráveis, mais sofredores.
Termino este post que já vai longo com uma reflexão. Se há um caso em que a relação Religião-Política nada tem a ver com isto que temos estado a falar é o Islão.
Para o muçulmano, Deus não é Pai como para os cristãos: Deus é o Senhor ao qual devemos ser totalmente submissos (é literalmente isso o que quer dizer muçulmano) e isto em todas as dimensões da vida: pessoal, familiar, social, económica, política. No Islão não há direita nem esquerda, quando muito há literalistas (que às vezes derivam em fundamentalistas) e reformistas. Toda a acção política deve ser feita em nome de Deus, toda a legitimação do poder vem de Deus. Pensar que o Estado pode ser independente da Fé é algo importado do Ocidente, que encontrou sempre e encontra hoje enormes resistências. Como talvez saberão, o árabe é a línguagem sagrada do islamismo e nela não há palavra que se aproxime sequer do conceito do secularismo.
Ao pensar nisto, recordo com alguma ironia certas discussões sobre religião que tem passado nestes blogues nos quais tanta certeza mascara tanta ignorância.

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