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segunda-feira, setembro 22, 2003

Sofrer, assim. 

Hoje alguém desabafava junto de mim: "Como é possível Deus existir se ele permite o sofrimento das suas criaturas?". Era alguém que sofria tanto que nada lhe fui capaz de dizer. Contudo, sei bem o que lhe devia ter dito. Devia ter-lhe dito que Deus é nosso Pai porque nos criou à  sua imagem e semelhança e como tal deu-nos liberdade plena para os nossos actos ou seja o poder de escolher o caminho como Ele o pode escolher. Acontece apenas que para essa liberdade ser plena, é necessário que o mundo à  nossa volta, o nosso corpo, os outros, tudo o resto evolua também em liberdade. O princí­pio da incerteza de Heisenberg tem um significado profundamente teológico. O contraponto disto é que, assim, o mal, o sofrimento, a morte, existem à nossa volta e dentro de nós. Só desta forma a nossa liberdade tem verdadeiro sentido, só assim a capacidade de escolher nos foi dada, só assim somos verdadeiramente filhos de Deus, só assim temos algo de divino em nós. Deus criou-nos como filhos para vivermos em liberdade e não numa redoma como mascotes. Aceitando isto podemos talvez perceber que o sofrimento não é um castigo nem a prova duma ausência, podemos talvez perceber que o sofrimento deve ser uma oportunidade de ter consciência da precaridade da nossa existência terrena, uma oportunidade de, tendo maior consciência da nossa condição humana, nos aproximarmos de Deus. Seguramente que esta consciência nos eleva e alivia o sofrimento.
Isto era o que devia ter dito mas não fui capaz. Tive medo de não ser entendido, de parecer minimizar o seu sofrimento. Tive medo até de, se calhar, estar enganado.
Em vez disso murmurei umas coisas chochas e e inconsequentes.
Tive também quase para dizer que, havendo tantos milhões de pessoas a sofrer, a morrer, todos os dias, quem somos nós, eu e ela, mais do que esses outros aos olhos de Deus. Também isto retive para não correr o risco de ser brutal.
Porque é tão difí­cil pôr a minha Fé ao serviço dos outros? Deve ser a sina dos que não tem uma alma ao ní­vel da sua Fé...

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