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segunda-feira, outubro 27, 2003

Os fiéis depositários 

Lembrei-me este fim de semana de um livro de Amin Maalouf, lido já há uns anitos: "Os Jardins de Luz". Conta a história de Mani, profeta nascido na Pérsia no séc.III, que teve uma Revelação divina que o levou a criar uma religião nova, resultante dum sincretismo entre o cristianismo, budismo e zoroastrismo. A religião maniquéia que chegou a difundir-se do Médio Oriente até à China, acabou por desaparecer enquanto realidade institucional devido a repressão, a adulteração e a simples diluição. Dela sobrou apenas um reforço das doutrinas gnósticas e dualistas (que foram penetrando outras religiões para gerar inúmeras seitas ditas heréticas) e também a palavra e conceito de maniqueísmo que já nada tem a ver com a mensagem de Mani excepto a origem etimológica.
Ora bem, o referido livro põe na boca de Mani estas palavras poderosas dirigidas a um sumo sacerdote da religião de Zoroastro: "Acontece um homem julgar-se depositário de uma mensagem quando, ao fim e ao cabo, já não é mais do que o seu caixão".
Isto mostra bem a maior dificuldade de todas as religiões: o esforço necessário para a preservação da doutrina, da mensagem revelada, leva muitas vezes a práticas contrárias a essa mensagem. É esta a origem do fundamentalismo. Contudo, a ausência de esforço na preservação da doutrina leva ao seu apagamento, como aconteceu com a fé de Mani.
De facto, o equilíbrio não é fácil e muitas vezes não existe. A Fé dos crentes deve ser exigente para com aqueles que cuidam dela.


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