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sexta-feira, novembro 07, 2003

Aceitar a loucura 

A Inês veio ontem falar-nos sobre a doença mental, sobre quando ela atinge alguém próximo de nós. A Inês fá-lo, como de costume, de forma tocante e profunda. E levanta uma questão que desafia a minha Fé.
Para mim a sanidade mental é o bem mais precioso que temos e como tal deve ser preservada cuidadosamente. Só que a doença surge abruptamente e às vezes naqueles em que menos se espera. O sofrimento para o próprio e para aqueles que o amam é um sofrimento inominável pois é a própria identidade da pessoa que fica profundamente em causa. Diziam os antigos gregos que quando os Deuses queriam castigar um homem começavam por lhe retirar o uso da razão!
Quem me ler com alguma atenção, já se deve ter apercebido que a questão da teodicéia, ou seja da justiça de Deus, nas suas acções e omissões, está bem arrumada dentro da minha cabeça: Deus permite o mal, permite a desgraça dos homens porque esse é o preço a pagar pelo dom supremo da liberdade que ele nos deu quando nos criou à sua imagem e semelhança. Por outro lado, oferecendo-nos caminhos para a nossa Salvação permite-nos aspirar ao regresso a Ele. Fazendo isto parte da minha Fé, consigo aceitar com razoável serenidade e esperança os espectros da morte, doença, acidentes, catástrofes, sobretudo os próprios mas também os alheios.
Já a questão da possibilidade da doença mental, essa causa-me muito maior perplexidade e perturbação.
Isso terá fundamentalmente a ver com o meu conceito de alma. Como é evidente, eu não faço a mínima ideia do que é alma, de qual é a sua natureza essencial. Há-de haver com certeza numerosas definições teológico-filosóficas sobre a alma mas conheço-as mal. Como muitos, não consigo deixar de associar, de forma talvez simplista, a alma ao nosso Eu espiritual, à nossa entidade consciente individual. Usando o binómio matéria-espírito, não consigo deixar de ligar o corpo à matéria e a alma ao espírito. Quando se morre a nossa alma liberta-se do corpo e regressa ao seio de Deus. Isto é, o meu Eu espiritual encontra-se finalmente com Deus.
Ora é aqui que reside a minha perplexidade quanto à mera possibilidade da doença mental. Porque a doença mental altera dramaticamente o nosso estado de consciência, altera a natureza do nosso Eu individual. Isso quererá dizer que a doença mental pode alterar ou mesmo destruir a nossa alma? Será possível tal coisa, sendo a alma o supremo dom de Deus em nós? Como admitir que àqueles cujo sofrimento é de todos o mais terrível, lhes seja negado a possibilidade de Salvação? Ou será que verdadeiramente a alma transcende o Eu consciente, sendo muito mais do que isso?
A minha razão e os meus conhecimentos não me permitem esclarecer esta enorme dúvida. Contudo, a minha Fé sabe que serão aqueles, os mais desgraçados entre os desgraçados, os que irão conhecer a maior misericórdia de Deus Pai.
Não devemos nunca esquecer que “Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; felizes os que choram, porque eles serão consolados”.
Seja como fôr este é um assunto em relação ao qual tenho muitas perguntas a precisar de respostas.


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