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segunda-feira, novembro 10, 2003

Dignidade 

A Pública ontem estava imparável. Li também um magnífico artigo de Paulo Moura sobre o calvário dos nigerianos às portas de Tânger, em condições absolutamente miseráveis e à mercê de tudo e todos, longamente à espera da passagem para a Europa mas que as mais das vezes se transforma na passagém para a morte.
Li sobre a missa de domingo na mata de Missnana presidida pelo pastor pentecostal Isaías, verdadeiro apóstolo, verdadeiramente um entre eles, entre os últimos dos últimos.
Passo a trancrever a descrição:
"São cada vez mais, continuam a chegar, em grupos, a palrar, frescos e festivos, os "camarades" que vivem na floresta há anos, que dormem ao relento, clandestinos, perseguidos, doentes, desesperados. Agora são mais de 300, e repetem em coro as frases do pastor. "Vamos perdoar. Se perdoarmos o nosso semelhante teremos o perdão do Senhor. Please Master Jesus!" Batem palmas, a marcar o ritmo das frases. "Please Master Jesus! Aleluia! Aleluia!" Continuam a chegar, são centenas. O pastor levanta de súbito a voz: "Quando eu disser 'Canta!', todos cantam e dançam. Quero que usem todo o vosso corpo para falar com o Senhor. Canta!" E uma repentina tempestade de júbilo fustiga a floresta sitiada. Cantam a várias vozes, incrivelmente afinados, improvisando, desdobrando o ritmo. Uma rapariga salta para a frente e grita: "Praise the Lord!", e todos começam a repetir as suas frases, a bater palmas. Cada vez mais alto, com vozes diferentes, e solos e duetos e orquestrações fosfóricas e instintivas. Até que surge Isaías e é o delírio. "Todos de braços no ar!", grita ele. "Olhos fechados e braços no ar!" Uma mulher começa a entoar uma melodia, sem palavras. Isaías grita: "Jesus is Love!" Os "camarades" ondulam os corpos e repetem: "Jesus is Love!". Parece um diálogo frenético e demente. Acelera. "Jesus Christ is love! He is love!" E Isaías desata numa prelecção pedagógica e moralista sobre os tempos que se avizinham, sobre os perigos, os desafios que esperam os "camarades", na floresta, na deportação, na travessia, em Espanha. Um discurso cada vez mais febril, de encorajamento, insurreição, ritual e selvagem, misturado com gritos, palmas, música. "Que coisas são essas que vos destroem? Quem são esses que vos perseguem, vos agridem, vos tiram o pão e a liberdade? Nada nem ninguém! São vocês que contam! Vocês e Deus! Vocês e a Europa! You and the espagnol!" Isaías corre, berra, faz caretas, conta histórias, incarna personagens, é actor, pantomineiro desvairado. O seu telemóvel toca, um som de sirene de ambulância, atira-o ao chão, dá-lhe pontapés. "Chamam-nos pretos. Bandidos. Pois a Bíblia diz que não há nada que nos possa deter. Somos invencíveis".""E os "camarades" começam a falar alto com Deus. Cada um por si, com a sua conversa privada, olhando para as próprias mãos. Uns batem na cabeça, outros choram, outros ralham e gritam com Deus a plenos pulmões. A emoção atinge o paroxismo. A floresta treme. Um terramoto de pensamentos. Uns têm olheiras fundas, outros manchas no corpo, outros uma tosse vinda das entranhas. Estão todos doentes, todos a morrer. Mas é como se esse próprio facto os justificasse, lhes desse vida. Como se cada um fosse apenas uma voz a gritar com Deus. "Livra-me do medo. Livra-me da frustração", suplica uma rapariga, de olhos fechados, num sussurro apaixonado. "Deixa-me chegar ao meu destino".
Sinto nestes homens, nesta ralé da qual nos vamos afastar quando os encontrarmos nas nossas ruas, o reviver dos primeiros cristãos.
Esta excelente reportagem trazia um pequeno apontamento que me tocou, mais do que tudo o resto. Era sobre uma dentre eles que já tinha passado para cá, para a Terra Prometida:
"À chuva, no meio da praça do Intendente, em Lisboa, Juliete é uma criança perdida. Já pagou oito mil dólares. Só faltam 32 mil. A uma média de cinco clientes por dia, prevê poder liquidar a dívida em seis meses. Depois, será livre."
"São eles que as distribuem pelos vários países e que as apresentam às "madames", elas próprias antigas prostitutas que ficaram a trabalhar para a organização. Apresentam-se como sofisticadas mulheres de negócios e viajam permanentemente. "A minha 'mãe' está cá agora", diz Juliete. E, por maior pejo que sintamos em admiti-lo, a sua expressão evolui num trejeito de vaidade e insolente afecto. "A minha 'mãe' está cá". Como se houvesse sempre dignidade em estarmos à altura do destino que nos foi reservado. Por mais indigno que ele seja. "
Provavelmente irei esquecer esta reportagem, como já esqueci muitas outras. Desta última frase é que não me esquecerei nunca.


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