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quarta-feira, novembro 19, 2003

Diálogos intra-religiosos 

Caro Pedro,
Fiquei feliz com o seu mail pois sei assim que me continua a visitar e a sua visita é daquelas que me honram. Honra-me porque vejo bem que a sua Fé é uma Fé exigente, difícil. Você pretende assumir a palavra de Cristo na sua integralidade. Não desvia o olhar das partes duras e difíceis de entender. Não relativiza nem contemporiza. Não procura conforto, procura Verdade. Acho isso digno da maior admiração.
Como você já deve ter percebido, eu, aqui como em tudo na minha vida, sou daqueles que procura o caminho mais suave para o destino que escolhi. Sempre gostei mais de velejar do que de remar. Isto, obviamente, retira grandeza à minha Fé mas a minha natureza profunda é mesmo esta e não senti ainda um apelo forte do Espírito Santo para a mudar. Recordo-me sempre de Jesus a dizer-nos que “o meu jugo é leve”.
Penso contudo que a Palavra de Cristo é tão rica, tão complexa, tão cheia de coisas contraditórias na aparência mas coerentes na essência, que é naturalíssimo haver uma infinitude de abordagens à mensagem revelada. E é excelente que elas se possam discutir com honestidade, com serenidade, com a noção absoluta de, como você diz e bem, sermos irmãos na Fé, unidos pelo elo fundamental que é Jesus Cristo.
Gostaria apenas de lhe comentar duas coisas.
Uma é sobre o risco de abdicarmos da evangelização e da sua incompatibilidade com a comunhão inter-religiosa. Aí a minha posição é, como sabe, diferente. Longe já vai o tempo da evangelização em que os arcabuzes e as bíblias iam pelo Mundo de braço dado a difundir a Boa Nova. Para mim, evangelizar hoje deve dirigir-se mais aos incréus que vivem ao nosso lado do que aos crentes de outras paragens e outras religiões. Quanto a estes, evangelizar hoje passa mais por tentar conhecer e compreender as suas Fés, por encontrar pontos de encontro e por conseguir mostrar que a mensagem de Cristo também se lhes aplica do mesmo modo que elementos da Fé dos outros também se nos podem aplicar. Penso que isto é possível sem desvirtuarmos a nossa religião nem a dos outros. Se pensarmos bem, não terá sido isto um pouco o que S.Paulo fez, ao universalizar o cristianismo judaico?
A outra é sobre a natureza humana e as perspectivas optimista e pessimista sobre ela. É bem verdade que o Mal existe em nós. Mas há alguma dúvida que Deus nos ama como Seus filhos? Sendo assim, é porque o Bem, decorrente da natureza divina que há em nós, também em nós existe.
Um último apontamento. Diz o Pedro que “não são os preceitos expostos por Cristo que salvam, mas a Sua pessoa”. Eu não sei se isto é boa doutrina ou não, mas para mim a Pessoa e Palavra de Cristo são uma e mesma coisa. Veja João 1,14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”.
Um grande e fraternal abraço.

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