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quarta-feira, novembro 19, 2003

Efémero? 

Gosto da quinta coluna. Nos blogues colectivos é costume aparecer aquele horroroso hábito, bem português, de "se um diz mata o outro diz esfola". Ali não. Ali há posições antagónicas que são discutidas com uma veemência que às vezes roça a violência. Mas no fim parece vencer sempre a amizade entre eles, uma amizade cujo altar é normalmente uma mesa de restaurante, uma amizade cuja liturgia parece ser gastronómica. À amizade eles sacrificam o cordeiro e depois comem-no. Ainda bem.
Vem isto a propósito de um post de AR ,que parece ser de direita quando CC é de esquerda e que parece ser ateu quando CC é católico.
AR diz várias coisas interessantes e engenhosas: que "a ideia de a minha vida não ter nenhum propósito maior não me perturba", que "acho uma certa graça à ideia de que aqui estou como todas as criaturas que conhecemos: para crescer, para me reproduzir e para morrer. Como aconteceu a todos os que vieram antes de mim e como acontecerá a todos os que vierem a seguir", que "sou, por isso e em definitivo, a medida de mim próprio, porque em mim começo e em mim termino". E, last but not the least, "o resto,..., são construções do consciente para recusar o efémero da nossa existência".
Curiosamente, já em tempos idos, pensei exactamente assim. Nessa altura, não muito remota, achava eu que a fé em Deus era uma resposta do homem à sua perplexidade perante a morte, a finitude. O homem, com a sua grandiosa ideia de si próprio, não podia aceitar nem o facto de ser efémero nem o facto de, como todas as criaturas estar entregue a si próprio neste mundo agreste. Como tal necessitou da ideia da vida eterna, do Além, de Deus. E assim apareceram as Religiões. Ponto final. Parágrafo.
Esta ideia satisfez-me intelectualmente durante os anos finais da minha adolescência, início de vida adulta. E um dia, de repente, deixou de me satisfazer.
Porquê? Não tive propriamente uma sarça ardendo diante de mim. Foi antes um conjunto de acontecimentos, de leituras, de experiências pessoais que mudaram completamente a minha relação com a Fé e me tornaram crente em Deus e em Cristo, Deus encarnado entre os homens.
Já agora posso dizer que durante este meu período de ateísmo esclarecido e divertido, eu continuava a ir regularmente à missa: eram os amigos, as miúdas, os meus pais que assim não me chateavam, etc. Tudo razões profundas...
Lembro-me bem dum certo domingo em que o Evangelho do dia era a célebre parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32):
Jesus disse: Um certo homem tinha dois filhos; E o mais novo disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, tendo ele gasto tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a sofrer de necessidades. E chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos, a apascentar porcos. E desejava encher o seu estómago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e sandálias nos pés; E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi encontrad. E começaram a festejar. O seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. Chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: Voltou teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele ficou indignado, e não queria entrar. E, saindo, o pai instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos; Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e foi encontrado
”.
Nesse domingo, por qualquer razão dispus-me a escutar a leitura do evangelho em vez de ficar a olhar para a assistência, para os azulejos, para a talha dourada, para o fantástico friso de velhas do coro. Escutei dessa vez e fiquei perplexo. Para mim a atitude do irmão mais velho era de toda a justiça. Era a coisa mais humana possível, era exactamente a forma como eu reagiria. Andei tempos às voltas com isto. Cheguei a achar que o objectivo dos Evangelhos era tornar-nos num rebanho de ovelhas, que aceitam e perdoam todas as injustiças. Mas acabei por discernir neste texto algo de sobre-humano. Achei que nos estava a pedir algo superior à nossa natureza. Só mais tarde percebi que aquilo significava uma metáfora da relação de Deus com os homens.
Percebi mais tarde que o que Cristo nos veio dizer foi que Deus era, não o nosso Senhor, mas sim o nosso Pai e que, como tal, nos ama como Seus filhos, da mesma maneira como nós amamos os nossos filhos. Foi nessa altura que entendi o significado metafísico das palavras do Génesis segundo as quais fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Descobri então em mim próprio, algo da minha natureza que não é meu, que não vem da minha natureza material de homem. Progressivamente, insensivelmente, ganhei consciência da minha alma inserida no meu Eu mas a ele não pertencente. De igual modo o comecei a descobrir nos outros.
Percebi então que a parábola do filho pródigo é um apelo, não a que sejamos justos, mas sim a que tenhamos uma grandeza de coração que, mais do que humana, é divina. E descobri que essa grandeza é possível em nós, precisamente porque temos na nossa natureza algo que nos transcende, algo que provém de Deus, algo que Lhe é consubstancial, a Alma. A aspiração à justiça é algo de profundamente humano; a aspiração ao Amor, universal e incondicional, é algo que nos vem de Deus e que está depositado na nossa Alma.
Foi assim o início do meu percurso de Fé, foi assim que voltei a ser Cristão, irremediavelmente e incondicionalmente. Depois disto, muito li, aprendi, reflecti, compreendi. Mas disso já dirá o AR que são construções do meu consciente.
O que lhe queria no fundo dizer, meu caro AR, é que no meu caso, como no de muitos outros, não é o conforto da vida eterna que me fez crer em Deus. Já aqui disse que embora nela acredite não a exijo. O que aspiro, como filho de Deus, é regressar ao Pai, ver o Seu rosto.
Como S.Tomás de Aquino, eu só peço a Deus:

uma inteligência que O conheça,
uma angústia que O procure,
uma sabedoria que O encontre,
uma vida que O agrade,
uma preserverança que O espere,
e uma confiança de que O possua, enfim!”


Caro AR, o Efémero a mim também não me assusta porque eu percebo que ele não é menos do que as infinitas cambiantes do Eterno.
Note bem que não estou aqui para converter ninguém. Só pretendo suscitar-lhe dúvidas tal como você as suscitou em mim.
Um abraço para si, para CC e LR.

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