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quarta-feira, novembro 26, 2003

Perder a Fé ou sair da Igreja? 

Há tempos dizia o Tiago, com a sua habitual perspicácia, que os protestantes "quando não estão bem mudam-se". Ou seja, acrescento eu, mudam de Igreja, criam uma Igreja nova, seja o que fôr, mas em princí­pio não perdem a sua Fé.
Com os católicos as coisas já não são assim tão simples. Para muitos de nós a nossa Igreja é parte integrante da nossa Fé. A Igreja Católica parece ter ela própria identidade teológica. Como obra de Deus, entrou na ordem sobrenatural das coisas. Quase que diria ao nível da Santíssima Trindade. Que os integristas me perdoem mas não resisto: para muitos católicos a Igreja faz parte de uma espécie de T3+1. Isto faz com que muitas vezes as tensões entre a forma como os católicos sentem e vivem a sua Fé e a actuação, a doutrina, a prática da Igreja Católica, acabem por causar tremendas crises de Fé. Parece que um católico, se não está bem com a sua Igreja não tem por onde fugir a não ser acabar por perder a sua Fé.
Vem isto a propósito de um interessantí­ssimo post do Religionline trancrevendo uma entrevista de Laura Ferreira dos Santos sobre o seu livro "Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença - I", livro esse que decididamente vou comprar.
Nessa conversa julgo perceber o factor crí­tico que levou a Laura a perder a Fé. Diz ela: "No fundo, talvez a minha maior dificuldade no caminho da descrença seja o facto de continuar a aceitar a maior parte ou a totalidade dos ensinamentos evangélicos, mas sem conseguir aderir ao Deus para que se julga remeterem, aparecendo-me a Igreja Católica sobretudo como um clube para homens, legitimando de diversos modos o papel inferior da mulher na sociedade.", " Neste Diário, a temática religiosa, entendida num sentido muito amplo, aparece perspectivada tendo em conta a situação da mulher e o modo como o "religioso" intervém nela","Penso que Cristo foi um grande defensor das mulheres, mas a sua (?) Igreja não conseguiu manter-se ao mesmo ní­vel. Pela voz da Igreja católica e de outras religiões continua a manifestar-se um antigo horror à  mulher que, (...) pode quase configurar uma espécie de crime contra a humanidade".
Ou seja, a legítima revolta da Laura quanto à  postura da Igreja Católica perante a mulher fê-la afastar da Igreja. Como para ela, tal como para muitos católicos, a Igreja enquanto corpo apostólico, é pilar da Fé, esse afastamento implicou a perda da crença em vez da adesão a outra Igreja Cristã ou não Cristã onde a questão da mulher esteja eventualmente melhor resolvida.
É de facto uma pena. E é algo que tenho enorme dificuldade em perceber. Quem quiser pode clicar aí nos meus arquivos de Outubro e ler um post de 16 de Outubro sobre o Papa e a infalibilidade papal. Disse aí e reafirmo hoje, que as divergências de opinião que tenho com várias práticas e doutrinas da Igreja Católica, de hoje e de ontem, causam muito pouca perturbação à minha Fé. Causam muito pouca perturbação à  minha condição de Cristão e Católico. Há-de haver por a­í quem diga que no fundo eu não sou Católico, que sou um relativista moral impenitente. Humildemente, acho que não.
Para mim um católico que não esteja de bem com a sua Igreja, não precisa de se mudar e muito menos de perder a sua Fé. Quem não está bem, tem ainda muito por onde se agarrar. Só é preciso confiar mais em Cristo, entregar-se mais a Ele, viver em Seu nome.
A Igreja hoje já não lança anátemas aos seus fiéis que dela divergem em determinados assuntos. Custar-nos-á assim tanto a nós Católicos sermos tolerantes com certas coisas que não entendemos, com que não concordamos?



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