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sexta-feira, novembro 14, 2003

Salvação vs. Revolução 

Como CC bem notou, eu tenho efectivamente alguma "admiração pelos comunistas, pela sua honestidade, pela dignidade de homens que lutaram toda uma vida por um ideal que os transcende". Custa-me vê-los aviltados, troçados e menosprezados pelo facto de os seus ideais se terem dissolvido pela sua mera impossibilidade. Sobretudo porque os seus maiores crí­ticos, que estão na Esquerda e não na Direita, teriam sido os primeiros a saudar os amanhãs que cantam se, porventura, eles tivessem mesmo cantado.
Porém, a minha admiração e simpatia tem sobretudo a ver com o facto de neles sentir o ethos do verdadeiro crente: acreditar sem ver, acreditar mesmo que tudo, no mundo e no homem, pareça a desmentir aquilo em que se acredita. Tem a ver também, com o facto de que nos verdadeiros comunistas, tal como nos verdadeiros crentes, a sua fé parece fazer aumentar a sua dignidade, a sua rectidão moral, como diz CC, "uma vida impoluta, o trabalho sem cansaço, uma fé sem desânimo, a infalibilidade, a perfeição, a santidade". Claro que há muito comunista que não o é ou foi verdadeiramente, mas sim por razões espúrias ou por mera rotina. Também assim acontece com muitos cristãos.
Contudo, embora entenda bem a posição de CC, a mim a minha Fé não me faz aproximar da Esquerda. Não me faz querer tranformar o Mundo.
Ou melhor, faz, mas de um modo totalmente diferente. O que os comunistas quiseram foi mudar o mundo, mudar a sociedade para então mudar o homem, por forma a que os ideais da justiça, da fraternidade, da igualdade, da felicidade comum, pudessem prevalecer. Mas o homem não mudou, pois não queria mesmo mudar. Por causa deste facto extraordinário, criou-se a ditadura do proletariado, os gulags e outras práticas que perverteram totalmente o sentido profundo do comunismo.
Agora a religião, a Fé, estas não pretendem mudar o mundo. Cristo dizia: "o meu reino não é deste mundo", "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". O fim último da religião é mudar o homem, mudar cada homem, para assim ser possível a sua salvação. Para mim é mudando os homens em primeiro lugar, que se pode mudar o mundo. Se o meu percurso na Fé me mudar e me aproximar de Deus e se isto for visível para as pessoas que me rodeiam, estarei então a dar a minha contribuiçãoo, se calhar a única possí­vel, para mudar o mundo.
Há algo profundo que me afasta da esquerda e que é a atitude perante o sofrimento neste mundo. É hoje a opinião do mainstream que este deve ser eliminado, que a sociedade, solidária, tem obrigação de varrer o sofrimento das pessoas, qualquer que ele seja. Quanto a isto a minha opinião é radicalmente diferente. Peço desculpa mas vou citar um post meu anterior:
"Há algo que é essencial na Fé Cristã e que é cada vez mais difícil de entender para larguí­ssimas franjas da nossa sociedade: a atitude perante o sofrimento. Toda a gente hoje acha que o sofrimento humano pode e deve ser evitado. É opinião generalizada que a Fé Cristã acha, de forma conformista, que o sofrimento faz parte da vida e portanto deve ser tolerado. Como tal os cristãos, ou melhor a Igreja, é acusada de servir de travão contra o progresso humano pois não luta contra todas as formas de sofrimento.
Acontece porém, que a Fé Cristã, originada de alguém que aceitou dar a vida por nós, alguém que apesar de Filho de Deus aceitou sofrer para nos salvar, tem também como mensagem essencial a noção de que o sofrimento, sendo muitas vezes inevitável, pode ser redentor, pode ser criativo, pode tornar-nos melhores, pode aproximar-nos de Deus.
Claro que esta noção é escandalosa nos tempos que correm, particularmente para a Esquerda, generosa que é na sua natureza, mas o facto é que, se não crermos nisto, o sofrimento que nos pode acontecer a todos e de tantas maneiras, tornar-nos-á seguramente piores, mais miseráveis, mais sofredores
".
Uma outra coisa: para mim a responsabilidade individual de cada um de nós não pode nem deve ser diluível na responsabilidade da sociedade perante nós. Isto também me separa dos ideais de Esquerda.
Seja como fôr, meu caro CC, a sua forma de encarar a Fé no Mundo é infinitamente superior, por ser mais ética e por ser mais difí­cil, do que a daqueles que você aponta: "os que aceitam e se calam perante a injustiça do mundo, os calculistas que tiram dividendos das desigualdades sociais, os que se abrigam no conforto da indiferença". Aí concordo totalmente consigo
Um grande abraço para si.


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