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terça-feira, novembro 04, 2003

Salvação 

Caro Pedro,
Venho infelizmente responder-lhe de novo via blogue. O facto é que a minha caixa de mail sapo cada vez que de lá sai um mail para um hotmail pede-me confirmação do login e acaba por não enviar nada. Se você ou alguém me puder ajudar ficarei grato. Vamos então aos meus comentários aos seus.
Queria dizer-lhe em primeiro lugar que concordo com muito daquilo que o Pedro escreve. Todavia acho que o Pedro não está a avaliar as minhas opiniões com total equidade. Se analisar bem o que tenho escrito verá bem que à Salvação eu dou todo o relevo! A possibilidade da Salvação é mesmo para mim o pilar essencial da minha Fé: conforme lhe respondi anteriormente "Acredito que Cristo foi-nos enviado para nos mostrar o caminho até Ele e para nos mostrar que a Salvação nos espera a todos no fim desse caminho". Se me permite vou citar-lhe algumas das minhas próprias toscas tentativas poéticas, nas quais contudo exprimo melhor os fundamentos da minha fé: "Eu sou um homem assim, mas quero ser melhor/Eu sou um homem assim, mas Deus ama-me/Pois sou Seu filho e Ele quer-me de volta"; "Mas como Pai que ama seus filhos,/Tu queres ver-nos crescer/e ver-nos cumprir o divino que temos em nós./Para tal, foste-Te revelando ao longo dos tempos./Para tal, enviastes o Teu Filho para morrer às nossas mãos./Mostraste-nos assim que não há maior amor do que dar a vida por quem se ama./Mostraste-nos assim que, como diz Paulo,/tudo nos é permitido mas nem tudo nos convém./Mostraste-nos assim que o Teu Amor nos espera."
Repare bem nesta frase final. Para mim a Salvação é mesmo o reencontro com Deus, é o retorno a Ele e ao seu Amor. João, no seu Apocalipse, diz-nos que os que serão salvos irão ver a Deus tal como Ele é. Sendo assim o Pedro verá bem que a minha Fé não existiria sem eu acreditar na Salvação que Deus nos ofereceu e continua a oferecer por intermédio de Cristo, Seu Filho. Isto significa, meu caro Pedro, que, como nos disse João naquele lindíssimo final do seu evangelho cap.20,31), temos de acreditar que "Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhamos a vida em seu nome".
Se assim o fizermos isso naturalmente tem e deve ter profundas implicações e consequências em termos da nossa ética pessoal, da nossa paz interior, do nosso desejo de modificações sociais para um mundo melhor mas isto não é seguramente um fim em si mesmo. Eu não tenho Fé para ter paz interior: para isso chegava-me o ioga. Eu tenho Fé porque quero ser salvo, quero retornar a Deus, quero ver a Sua Face, quero vir a estar com Deus ou, usando a sua expressão, não ficar separado Dele.
Posto isto verá então que neste essencial estamos de acordo.
Convidar as pessoas a virem até à presença de Deus por intermédio de Cristo para assim serem salvas ou dizer-lhes que como você o faz que "sem Cristo, elas estão condenadas à separação eterna de Deus" é no fundo o mesmo. São contudo metodologias diferentes, historicamente sempre em confronto na Igreja. Tem sobretudo a ver com duas visões sobre o Homem, uma mais optimista outra mais pessimista, ambas legítimas, ambas fundamentadas e respeitáveis. Pessoalmente vou mais pela primeira, não por estar absolutamente convicto dela mas por ser a mais de acordo com a minha visão do mundo e de Deus enquanto criador de todas as coisas.
Uma outra coisa que penso ser relevante: ao dizermos que "só a mensagem integral de Jesus Cristo faz a diferença", que só ela permite a nossa salvação, temos de ter bem presente de que "nós" estamos a falar. Eu concordo totalmente com essa afirmação mas é minha convicção profunda que esses "nós" são os herdeiros directos ou indirectos do contexto cultural e civilizacional em que o Cristianismo surgiu e se desenvolveu. Inclui também aqueles que pela evangelização feita ao longo dos séculos tiveram acesso e adoptaram a mensagem de Cristo. Será legítimo exigir a um camponês do Uttar Pradesh, herdeiro de uma tradição bramânica quatro vezes milenar, que siga a mensagem de Cristo para ser salvo? Peço desculpa mas vou novamente citar um post meu anterior (o 2º): "A ideia de que a verdadeira revelação e correspondente possibilidade de salvação só foi posta à disposição de uma parte da humanidade é totalmente inaceitável","A assumpção profunda da Verdade da nossa religião obriga-nos a aceitar e respeitar a Verdade das outras religiões". Isto é verdadeiramente o fundamento do ecumenismo e da comunhão inter-religiosa.
Não quero terminar sem lhe dizer que, no nosso caso específico, o que nos une é imensamente mais do que o que nos separa. E dizer-lhe que com todo este arrazoado não pretendo convencê-lo ou mostrar que está errado. Só quero explicar-lhe qual é verdadeiramente a minha opinião.
Quero também dizer-lhe que respeito e partilho inteiramente aquilo que diz quanto à necessidade dos Cristãos mostrarem a sua Fé tal qual ela é, na sua integralidade, sem a suavizarem para assim serem mais simpáticos com os outros. Ser Cristão e mostrá-lo não é fácil nos dias de hoje. Enfrentamos o desprezo, a incompreensão, o paternalismo irónico os quais muitas vezes custam mais a enfrentar do que o ódio puro e simples.
Um grande abraço dum seu irmão na Fé.


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