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segunda-feira, novembro 24, 2003

Vida e morte entre nós 

No Público de Sábado, por entre as habituais erupções de ódio, de horror, de estupidez pura empunhando agora cadeados, da inanidade absoluta em que vamos mergulhando todos, encontro num artigo de Bárbara Wong, um sinal de esperança, esperança no meio de um cenário de morte. Vou citar, com admiração e respeito:
"No quarto principal, em cima das mesinhas de cabeceira e na esquina do guarda-fatos há pequenos ambientadores que digladiam o seu cheiro com o da doença, que está entranhado nas paredes pintadas de rosa-velho. Desde que o pai adoeceu, Luí­s Mendes, 35 anos, tem a casa "de pantanas". "O tempo é pouco" e Luí­s não consegue dar conta do recado porque primeiro está o bem-estar do pai, Fernando Mendes, 74 anos, deitado numa cama articulada. (...)Foi há oito anos que Fernando teve um tumor no cérebro e perdeu todos os movimentos do lado direito do corpo. Entretanto, os médicos diagnosticaram-lhe um outro no recto. Depois foram dois enfartes, no final do ano passado e no início deste.(...)Luí­s voltou à  casa paterna no Verão, para cuidar do pai, e está atento a tudo: sabe de cor o nome dos medicamentos e quando é preciso muda ele mesmo o penso que o pai tem junto ao recto. "O senhor Luí­s é um superenfermeiro! O senhor tem aqui um filho... É um grande homem!", atira Isabel Neto. Os olhos de Fernando mudam, segura a mão da médica e a custo ergue a cabeça para dizer com a voz trémula: "Eu sei, senhora doutora, eu sei!" (...)Antes, Luí­s, solteiro, saí­a com os amigos; agora, "É ir para o trabalho e voltar para casa". Ao fim-de-semana prepara as refeições para os outros dias. Diariamente, acorda às cinco da manhã, para deixar o pai arranjado e dar-lhe a medicação antes e depois do pequeno-almoço. Às 7h20 já está a subir a Calçada de Carriche, em direcção ao Lumiar. Volta a descê-la ao meio-dia para vir dar o almoço ao pai e, se não tiver muito trabalho na oficina, fica por casa, para lhe fazer companhia. (...)Enquanto está no trabalho, a cabeça de Luís está em casa, onde deixa o pai sozinho. "E se ele tem alguma coisa e ninguém o pode socorrer? Ele atende o telefone, mas já não consegue marcar os números..."(...)Fernando adora conversar, mas evita fazê-lo com o filho. Nem sequer diz a Luís como se sente. "Mas eu sei que está cheio de dores. Só pelos sinais, sei. Ele diz-me que está bem, mas eu sei que está em sofrimento. Se está na cama e não se quer levantar, é porque está mesmo aflito", angustia-se o filho. "Ele sabe o filho que tem e não quer preocupá-lo, quer protegê-lo", contrapõe Isabel Neto."
Vinha isto no meio duma reportagem sobre cuidados paliativos, onde uma ministra canadiana dizia com sabedoria que "a maioria das pessoas não tem medo da morte, mas da forma como irá morrer".
Abençoado sejas Luí­s. Quando o teu Pai for encontrar-se com o Amor de Deus pode dizer-Lhe que já foi por ti muito amado, tanto que, durante um período, tu lhe restituistes a vida que ele te tinha dado. Graças a ti o teu pai irá ter com Deus mais inteiro na sua integridade, mais grato pelos dons que recebeu, dos quais tu não és certamente o menor. Graças a ti o sofrimento pôde menos contra a alma de teu pai que vai assim mais limpa, mais redimida. Graças a ti o teu pai vai morrer com muito menos medo pois, contigo, teve já um antegosto do Amor Eterno que o espera. Abençoado sejas Luí­s.
É bom encontrar assim alguém que ama como Cristo quer que amemos: com a entrega de nós próprios.

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