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segunda-feira, dezembro 15, 2003

Catolicismo, en passant 

Caro P.:

Começo por autorizá-lo a citar esta nossa correspondência. Eu também o farei. Quanto ao meu nome prefiro mantê-lo anónimo. E explico-lhe porquê: por razões que já aqui expliquei, faz parte da filosofia do Guia que o seu autor permaneça anónimo, pelo menos até ver. Escusa de pensar que por trás disto está algum personagem mediático. De modo algum. A mim só me conhecem os meus familiares, os meus amigos, os meus colegas e, eventualmente, os meus vizinhos. O carácter anónimo do blogue é devido fundamentalmente ao facto de ele ser escrito para mim próprio, para que eu perceba finalmente aquilo em que verdadeiramente acredito. E curiosamente parece que a minha Fé aumentou desde então. O blogue acabou por ser para mim ao mesmo tempo um espaço de reflexão pura e um espaço para durante uns minutos diários escapar da minha tormentosa refrega profissional. Você vai achar isto bacôco mas digo-lhe que ao escrever alguns dos posts, senti passar pelos meus dedos a inspiração do Espírito Santo. Mas isso agora não interessa.
O carácter anónimo do blogue tem também outra razão, esta bem menos nobre: nele eu escrevo aquilo que sinto profundamente mas que não uso afirmar de viva voz, pelo menos publicamente. E porque não o faço? Sabe que tempos já houveram em que os cristãos eram perseguidos, outros em que foram perseguidores. Hoje, com a absoluta secularização deste nosso mundo ocidental, e apesar da Igreja ser ainda uma realidade institucional forte e presente, não é fácil ser cristão e católico fora dos adros das igrejas. Há 1.800 anos enfrentávamos a perseguição, o martírio e contudo sobrevivemos e prosperámos. Hoje enfrentamos algo muito pior, ou pelo menos muito mais difícil de fazer face com dignidade: o desprezo, o desdém, a incompreensão, o paternalismo irónico dos incréus. Como entenderá perfeitamente, isso é bem mais chato de enfrentar do que o ódio puro e simples.
Aliás é curioso que este pathos atinge mais aqueles cujo cristianismo é mais institucional, ou seja os católicos, do que os protestantes, que afirmam mais alto a sua visão minoritária, aqui mesmo na blogosfera – veja o Tiago “Voz do Deserto”, os Bengelsdorff. Como os invejo às vezes...
Agora deixe-me rebater alguns dos seus comentários:
Fala você do seu ateísmo tranquilo e, com graça, do baptismo da sua filha como uma "pré-inscrição não-vinculativa na religião dominante da sociedade”. Ó P., é preciso ser ateu para achar que o catolicismo é a religião dominante da sociedade. Só se fôr na Sociedade das Religiosas Reparadoras da Nossa Senhora das Dores de Fátima.
Desafia-me você: “Aponte-me uma organização religiosa sem pecado”. Não consigo. Nem religiosa nem qualquer outro tipo de organização humana.
Diz você: “separo os indivíduos das organizações”. Também eu. E também separo a essência da Fé das práticas da Igreja.
Pergunta você, com ânsia epistemológica: “como SEI que Deus existe?, como posso provar isso, a mim e aos que me questionam?”. Se eu SOUBESSE que Deus existe, não teria a experiência da Fé que é algo que que me torna melhor, mais humano. Enquanto vivo por este mundo prefiro acreditar em Deus do que SABER que Ele existe e como é.
Insta-me você, com autoridade: “Não me responda com mais dogmas”. Deixe-me que lhe diga que o dogma não faz parte da minha Fé. Não há NADA em que eu acredite pelo facto da Igreja o proclamar como dogma. Se ler um dos meus posts sobre o assunto verá que os dogmas e a infalibilidade papal são coisas altamente polémicas. São enxertos à nossa Fé original em Cristo. Não os valorizo. Acredito na autoridade papal, não na sua infalibilidade. Diz você que “páro quando se entra na zona que me está vedada: o dogma”. Não páre. Passe por cima.
Diz você, em tom oracular: “no meu entender o cristianismo já passou há muito o prazo de validade. Passou-o no dia em que a História ficou mais rápida que a capacidade do cristianismo de a encaixar, perceber, acompanhar”. Aqui engana-se simplesmente: o Cristianismo, o verdadeiro, o original, o dos primeiros cristãos está mais actual do que nunca. Quanto à História, essa não tem de ser encaixada, acompanhada pelo cristianismo. O cristianismo é o que é, o hinduísmo é o que é, o budismo é o que é, o islamismo é o que é. A Fé dos crentes não incide sobre este mundo, não tem de se encaixar em nada. Nem nada é obrigado a encaixar-se na Fé.
Ainda a propósito da História, dê-me o gosto de terminar com uma citação erudita. Disse Malraux há mais de trinta anos: “o século XXI será o século das religiões”. Pelo que temos vindo a assistir parece que vai ser mesmo assim.
Um abraço com estima.


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