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segunda-feira, dezembro 08, 2003

Concepções  

A Imaculada Conceição de Maria é uma festa católica que sempre me mereceu alguma reserva mental, por várias razões. Uma delas é que a devoção mariana nunca foi uma trave mestra da minha Fé. A outra tem a ver com a renitência que sempre senti em relação a dogmas de Fé sobretudo se se destinaram a instituir atributos com 19 séculos de atraso em relação à  vida da pessoa em causa. Finalmente, porque existe uma relação estreita entre o conceito instituído de Imaculada Conceição e a noção agostiniana do pecado original. Isto é, admitir que Maria nasceu sem a mácula do pecado original é admitir que este está ligado ao acto da concepção e isso, como já aqui disse, simplesmente não consigo aceitar.
Esta reserva mental, hoje como em todos os anos, fez-me hesitar em ir à  missa nesta data. Como sempre acabei por ir, só à  das sete, na igreja da minha juventude, a de S.Sebastião da Pedreira. Aí encontrei um velho conhecido, o Pe.Cordeiro, que numa homilia brilhante acabou por ir ao encontro das minhas dúvidas.
Dizia ele que era já tempo de entendermos o pecado original como ele é: é o querer não precisarmos de Deus, é querermos ter em nós a chave da nossa vida, do bem e do mal. Dizia ele que o baptismo não retira nada ao homem, não limpa qualquer mácula. O que ele faz é dar algo. Dar ao baptizado a Graça santificante de Deus, dar não a Fé por si só mas a possibilidade da Fé. A Fé que permite ao homem saber aquilo que verdadeiramente é, filho amado de Deus.
Nesse sentido, aquilo que Maria teve de único não foi uma concepção sobrenatural mas sim ter nascido já cheia da Graça de Deus, ter o Senhor consigo e estar ela no Senhor. O anjo disse-lhe: "Ave Maria, cheia de Graça, o Senhor está contigo". E ela disse sim a Deus, respondendo-lhe: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Sua vontade". A Graça de Deus é isto mesmo. É ser-se capaz duma atitude assim a que aspiram os verdadeiros Crentes. Ao fim e ao cabo a Imaculada Conceição tem tudo a ver com a Graça, tem tudo a ver com a dádiva de nós próprios.
A história da Igreja tem destas coisas: mesmo após séculos de erros e desvios, apesar de teologias e de doutores da Igreja, a Verdade simples e essencial de Cristo acaba por vir até nós Crentes. Graças a Deus.

Ainda a propósito deste assunto, descobri hoje através do Religionline, um interessante blog de reflexão católica em língua inglesa :Disputations. A explorar nos próximos tempos.


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