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quarta-feira, dezembro 03, 2003

Desencontros (2) 

Desta feita foi no Público de hoje que li uma notícia segundo a qual “Grupos Católicos Pró-vida dizem que contracepção é primeira agressão à sexualidade”. Começo por ler, com simpatia e concordância, sobre a preocupação existente por “uma situação de sexo sem amor, amor sem filhos, filhos sem sexo, com todas as terríveis consequências ao nível da estruturação básica destas mesmas sociedades: filhos sem pais, pais divorciados, a multiplicação de experiências afectivas que não satisfazem”. Realmente, este caos relacional e familiar já começou há muito a fazer os seus estragos desestruturantes na nossa sociedade. Mas não é disso que quero falar.
Aquilo que mais me impressionou na notícia foram as interessantes considerações dum tal Ramos Ascensão, presidente da associação Mais Família, sobre as divergências que existem na Igreja Católica a propósito da encíclica Humanae Vitae que condena todas as formas de contracepção artificial. Este benemérito admite que "o debate existe”, mas que “é essencial a unidade em torno do Papa João Paulo II - cujas posições sobre o tema alinham com a encíclica”. Mas o mais surpreendente é que ele acha que "agora, mais do que debater, devemos estudar a doutrina e ter uma atitude de obediência na unidade". Extraordinário.
Eu, também pela minha parte, lhe recomendo que, já que para si a contracepção é um assunto tão importante, leia a doutrina, leia-a toda, leia Sto.Agostinho, campeão da castidade, mas que que dizia “unidade no essencial, liberdade no acessório, amor em tudo”. Leia mesmo tudo e diga-me aonde é que está escrito que a obediência é uma virtude teologal. Explique-me onde é que está escrito que obedecer é mais importante que debater a nossa Fé, a Fé de nós ambos. Leia lá bem a encíclica e veja bem se no fim ela se proclama definição ex-cathedra, pois somente assim ela poderia ser considerada verdade dogmática.
Meu irmão na Fé, não me interprete mal. Eu entendo que a banalização da sexualidade empobrece o homem e a mulher, reduz a sua dignidade. Algo que nos pode elevar acaba por nos rebaixar se não lhe dermos a devida reserva, o devido lugar. E é assim que entendo a posição da nossa Igreja, intransigente defensora da nossa dignidade enquanto Filhos de Deus. Agora o que não aceito é que nós católicos, em vez de oferecermos aos nossos irmãos, crentes não crentes, argumentos válidos, argumentos honestos, em vez de aceitarmos debater as nossas posições, atiremos para a mesa chavões como a “obediência na unidade”. Isso não só não convence ninguém como descredibiliza a doutrina cristã. E descredibilizando-a, tornam mais difíceis a nós cristãos os debates sobre assuntos que são realmente importantes. Ou não acha que o aborto, a SIDA, o direito à vida, são assuntos muito mais importantes do que os pundonores à volta da contracepção?

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