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sexta-feira, dezembro 19, 2003

Este Natal 

Não sei se conhecem a história do 4º rei mago. Faz parte duma antiga tradição cristã e aparece em alguns textos primitivos e apócrifos. O escritor Michel Tournier retornou a esta história no seu belíssimo “Gaspar, Melchior e Baltasar”.
Este 4º rei chamado Taor, príncipe de Mangalore, também viu a estrela e acreditou nela. Tal como os outros três armou um imponente séquito e abandonou o seu reino para se prostrar perante o novo Rei que ia nascer e entregar-lhe a sua melhor oferta. Só que, algures, o seu caminho desviou-se do caminho apontado pela estrela. Não por sua vontade mas por fatalidades que lhe foram acontecendo, terríveis e sucessivas. Durante anos vagueou pela Palestina e, um a um, foi perdendo todos os sinais da sua realeza. O seu séquito foi sendo dizimado, foi-o abandonando a ele e à sua demanda. E por fim Taor ficou só. Sem séquito, sem roupa que não a do corpo, sem dinheiro excepto uma moeda de ouro que trazia a sua efígie. Mas Taor não deixou de acreditar que ainda ia a tempo para adorar o novo Rei. E continuou a procurar Jesus. Num momento dramático ele fica sem a sua moeda, perdendo assim a única prova da sua realeza, a única prova da sua identidade. Neste momento, e para poder continuar a sua procura, Taor renuncia verdadeiramente a si próprio, renuncia à única oferta que com ele trazia. A partir desde momento a sua oferta passou a ser ele próprio. Continua a sua peregrinação, é preso e feito escravo nas minas de sal, junto a onde fora Sodoma. É libertado passado muitos anos quando já não era mais do que um farrapo translúcido, um “homem transparente”. E continua a sua procura. Por fim, 33 anos depois do início sumptuoso da sua viagem, pela altura da Páscoa dos judeus, ouve finalmente dizer que Jesus estava em Jerusalém. Taor arrasta-se até lá onde chega já na noite da Pessach. Lá dizem-lhe que Jesus estava com os seus numa casa de José de Arimateia para onde Taor corre ansioso. Transcrevo agora o lindíssimo epílogo do livro de Tournier:
A sala estava vazia. Uma vez mais chegava demasiado tarde. Tinha-se comido naquela sala. Havia ainda treze recipientes e em alguns deles um fundo de vinho tinto. Em cima da mesa viam-se fragmentos de pão ázimo.
Taor sentiu então uma vertigem: pão e vinho! Estendeu a mão para um copo e ergueu-o até aos lábios. Depois amassou um fragmento de pão e comeu-o.
Então vacilou mas não chegou a cair. Os dois anjos que velavam por ele desde as minas de sal acolheram-no nas suas asas e levaram aquele que, depois de ter sido o último, o perpétuo retardatário, acabara por ser o primeiro a receber a eucaristia.


Talvez Taor tenha entendido que a oferta que ele, como os outros três reis, tinha sido compelido a trazer, era uma resposta a uma oferta primeira que Deus fez aos homens. Não deve contudo ter percebido o supremo privilégio que teve em fazer a sua oferta, nada menos do que ele próprio, praticamente ao mesmo tempo e do mesmo modo que se consumou plenamente a oferta de Deus aos homens. E morreram assim os dois, Cristo e Taor. Taor terá sido assim o primeiro homem que, mesmo sem conhecer a Palavra de Cristo, sem sequer o ter conseguido ver, viveu e morreu em nome Dele.
Tournier conta no seu livro que cada um dos Reis Magos encontrou Jesus ao fim duma longa demanda pessoal, simbolizada no presente oferecido a Cristo. Para cada um deles, este encontro foi uma revelação clarificando o sentido verdadeiro da sua demanda. Taor, que falhou o encontro com o Menino mas que ainda viu o derradeiro altar do Cordeiro de Deus, foi aquele que fez a suprema oferta. Foi aquele que, mais do que a ter percebido, viveu o supremo significado da encarnação de Cristo.

Neste fim de ano de 2003, esta é a história de Natal que me apetece contar aos meus filhos. Já comprei uma quarta figurinha para eles porem no presépio. No próximo dia 25 vou tentar explicar-lhes porquê.

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