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sexta-feira, dezembro 05, 2003

Nota profana 

Caríssima Maria:
Li o seu post sobre a opinião dum so-called monstro sagrado do nosso meio jornalístico e bloguístico sobre a Madre Teresa de Calcutá e percebi a sua perturbação. A mim provocou-me foi irritação. Deixe-me dizer-lhe algumas coisas para a tranquilizar.
Não sei se é leitora de Eça de Queiroz. Se não é recomendo-lhe absolutamente toda a obra dele, livros, artigos, prefácios, cartas, tudo. Este homem prodigioso conseguiu apanhar como ninguém a verdadeira essência do carácter nacional. Mais do que isso, eu penso mesmo que ele teve artes diabólicas para fazer cristalizar o país na imagem que dele traçou. Depois de Queiroz, Portugal permaneceu queiroziano.
Com efeito, na nossa sociedade de hoje, tropeçamos a torto e direito com Abranhos, Gouvarinhos, Pachecos, Acácios, Dâmasos, Basílios, Amaros, Raposões, Alpedrinhas, titis Patrocínios, Gonçalos Ramires, Andrés Cavalheiros, Julianas, Artures Corvelos, Egas, Taveiras, Vilaças, Crafts, Amados, Palmas Cavaleiros e Cavalões, enfim esses e todos os outros.
Mais do que nos romances, é nos seus artigos de jornalista e na sua correspondência particular que a imagem do Portugal profundo ficou traçada e fixada para todo o sempre.
Vem isto a propósito de Eça ter escrito numerosas vezes que Portugal era um país de literatos: dentro de um carpinteiro vivia e chorava um poeta lírico, após ter um drama aplaudido no Sta.Maria um escritor era imediatamente convidado para ministro da Marinha. Há numa das Farpas de Eça uma descrição deliciosa duma visita real à província do Minho. Aí conta Eça que, nos caminhos da visita, a cada instante e “por detrás de cada árvore irrompiam cavalheiros de capa ou senhoras de vestido branco, lendo odes ou falas”.
Ora minha cara Maria, esta literatice geral do país manteve-se viçosa. Só que assumiu novas formas. O drama em cinco actos traduzido do francês desapareceu, a poesia essa manteve-se e prosperou, e apareceu algo de novo, algo que hoje constitui uma praga pior que a acácia: o colunismo e os colunistas. Colunistas políticos, económicos, culturais, de costumes, de tudo um pouco. Os seus começos foram auspiciosos: o “Visto” de Sá Carneiro no Expresso, os sintéticos editoriais de Vítor Direito no Correio da Manhã, as análises de Marcelo também no Expresso, as fantásticas crónicas do MEC, a coluna de Vítor Cunha Rego, a rezingona e profética coluna de Vasco Pulido Valente,etc. Hoje porém, todos são colunistas. Os jornais são 1/3 de notícias, 1/3 de publicidade e relatórios de contas, e 1/3 de colunas de opinião. E estes colunistas tem opinião sobre tudo, citam imenso, usam requintes estilísticos como se fossem poetas. Lê-se Nicolau Santos a citar Brecht a propósito do défice público. Lê-se o EPC a desbobinar textos crípticos sobre assuntos mínimos, citando autores atrás de autores, visíveis e invisíveis. Para toda esta gente inúmera a opinião deixou de ser simplesmente um direito, passou a ser uma obrigação, um modo de vida. E anda tudo à procura de causas, de polémicas, de revelações originais. Seguindo o exemplo superior de Eça, anda tudo à procura do seu Pinheiro Chagas, usando se preciso o bei de Tunes mais à mão. E tudo isto com o nosso lusitano amor pela forma em detrimento do conteúdo. Os Indys deste país e seus imitadores criaram um estilo de prosa que todos, sejam de esquerda ou de direita, seguem: um estilo forte, violento, conciso, terso, tenso, algo irritado. Um deles, e um dos melhores, Vicente Jorge Silva, chamou-lhes um dia as Cassandras dos nossos tempos.
E isto era na imprensa. Quando a blogosfera chegou, foi aberta a cornucópia. MILHARES de colunistas surgiram. O país tornou-se uma enorme colunata cujo fim já não se vislumbra. E o giro é que já se criaram padrões de comportamento dignos de serem estudados. Eles actuam como rebanho ou como matilha, consoante as circunstâncias, claro. A sua remuneração mais apreciada é serem citados. Ai como eles gostam de ser citados! Não pedem mais nada, isso lhes basta.
E são simpáticos: praticamente não houve blogue, por mais humilde que seja, que não assinalasse a chegada do hoje já mítico Causa Nossa. Uns com aplauso, outros com expectativa receosa de concorrência (mas em quê, meu Deus?), outros com azedume.
Ora nesta colunata blogosférica infinda existem colunas especias. Eu chamo-as de cariátides, pela elegância esculpida do estilo, pela preciosidade do entalhe, sobretudo pela altivez pétrea com que nos olham do seu pedestal.
Uma destas cariátides é sem dúvida uma personagem de mistério, colunista no Independente, mas que agora passou a beneficiar a blogosfera com a sua presença. Falo naturalmente do grande, do único, do nunca vislumbrável João Pereira Coutinho.
Nunca antes uma chegada à blogosfera tinha sido anunciada, divulgada e festejada da forma festiva, encomiástica e satisfeita como a desta grande figura. Deixem-me dizer que não o conheço, nunca o vi, descrição dele só conheço aquele desenho do seu site. E desse desenho melhor é não falar...
Enfim, passemos ao que interessa. Falou-me a Maria dum texto deste benemérito sobre a Madre Teresa. Fui logo lê-lo, receoso de ver desmantelada a imagem de alguém que venero. Desde o início senti-me logo intimidado. Primeiro na qualidade de europeu continental de civilização infinitamente inferior à do mundo anglo-saxónico. Só depois é que percebi que tal não era devido ao corte dos meus fatos, à excelência da seda das minhas gravatas, à qualidade da pele dos meus sapatos, mas sim à existência nesse outro mundo superior duma personagem até aí desconhecida para mim: o grande Christopher Hitchens, assombroso colunista da não menos assombrosa Vanity Fair. A seguir descubro que este grande homem escreveu um livro tremendo sobre a nossa santa, depois do qual dificilmente ela será vista com os mesmos olhos. Livro aliás com um título maroto e engenhoso: "The Missionary Position: Mother Theresa in Theory and Practice". Enfim, o grande Hitchens verbera a senhora pelo facto de com os milhões que angariou não se ter substituído ao estado indiano, que aliás gasta muitos mais milhões em programas nucleares, para “melhorar as condições primitivas dos hospitais indianos que essa «sacred cow» (palavras de Hitchens) piamente dirigia”. No fundo, no fundo o que este grande colunista, exemplar perfeito de uma espécie emergente, censura a Teresa de Calcutá é “a imagem desse primitivismo quase ascético, uma marca de despojamento e de santidade que infligiu em milhares de pessoas um sofrimento evitável”. Pois. Calculo que este senhor se horrorize a imaginar os seus tweeds a roçar sequer naqueles miseráveis junto dos quais comia e dormia a madre Teresa. Ele nem imagina sequer que para eles é muito mais importante terem a seu lado alguém que sofre com eles, chora com eles, que ora por eles, que fecha os seus olhos depois de eles morrerem, do que estarem numa enfermaria imaculada onde sejam tratados como camas ocupadas a desocupar quanto antes.
É de facto uma tristeza este nosso mundo ocidental, anglo-saxónico ou não: vaidade, vaidade, tudo é vaidade...o Eclesiastes é que tinha razão.
Ou como dizia o meu Avô: "tanta inteligência parva"!

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