<$BlogRSDUrl$>

domingo, janeiro 04, 2004

Inferno 

A bordo fala-nos hoje de Sartre e da sua frase lapidar "O inferno são os outros". Isto provocou-me um rewind da minha memória. Levou-me até 22 anos atrás quando no sétimo ano da Alliance Française estudei o "Huis Clos", onde Sartre nos atirou esta frase. Era um livro forte e perturbante pelo menos para a minha adolescência de então.
Cinco ou seis pessoas, depois de morrerem, eram fechadas num quarto eternamente iluminado e com as pálpebras removidas. Aí­, sem poderem dormir, sem poderem sequer fechar os olhos, eram confrontadas com a imagem que tinham deixado no Mundo, naqueles com quem viviam; eram confrontadas com o seu passado, com os seus crimes, fraquezas, omissões, crueldades. E com aquela irresistí­vel tendência humana, disparavam para o lado, rematavam para canto, causando assim um sofrimento ainda maior aos seus companheiros de destino. Aí­, com o passar do tempo eram confrontadas com o esquecimento dos vivos e com a impossibilidade do regresso, com a impossibilidade da fuga daqueles companheiros onde reviam a sua própria monstruosidade. E por fim percebiam que aquilo ia ser para sempre. Era o Inferno, infinitamente pior do que Bosch imaginara. E Sartre concluia, pela voz dum daqueles desgraçados, que o Inferno eram os outros.
Recordo-me hoje, perfeitamente, ter então achado que a conclusão a tirar não era nada aquela. O que achei, e disse-o numa aula, perante a complacência da professora e dos meus colegas, todos eles mais velhos que eu, o que achei era que o que aquilo tudo queria dizer é que o inferno não são os outros, somos nós próprios.
Mais tarde, quando reaprendi a minha Fé, voltei várias vezes a pensar nisto. E hoje, quando ainda não sei bem o que é o Céu e o Inferno, sei de algum modo que Deus, com a liberdade que nos deu, nos permitiu sermos o nosso próprio Inferno. Ou o nosso Céu. Em vida mas também e sobretudo, depois dela. Quero dizer com isto que acredito um bocado que, quando morremos, nada levamos senão aquilo que somos, aquilo em que nos tornámos. E isso, para o bem ou para o mal, será aquilo que irá ver ou não ver Deus, será aquilo que irá ou não ser visto por Ele. Talvez seja por isto que se diz que a Salvação, embora oferecida por Deus, está em nós próprios exactamente como o está a Condenação.
Mas não sei. Será já areia demais para a minha camioneta.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?