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sexta-feira, janeiro 30, 2004

Verdade e coerência 

Caro Pedro Leal, amigo e irmão:
Leio hoje você a dizer algo que já me disse em conversa que tivemos. E hoje, ao ler a história que conta vejo bem a medida do valor que você dá à coerência. Desta vez não a propósito do tal camponês do Uttar Pradesh (lembra-se?) mas sim dum patrício dele, o Paresh. Conta você da sua surpresa ao saber que este seu amigo hindu “também fora, com a família, em peregrinação ao Santuário da Cova da Iria. Fiquei surpreendido. Mostrei o meu espanto, e expliquei-lhe. Um hindu a participar numa celebração católica? Didáctico e paciente, ele desmontou a aparente contradição. Se o Hinduísmo é politeísta, abrigando milhões e milhões de deuses, que habitam inúmeros lugares e seres; se a Índia está lá tão longe, com os seus santuários e os seus rios sagrados; então porque não aproveitar este lugar “espiritual” aqui mais perto? O que importa, dizia o Paresh, é exercitar a espiritualidade, e assim estar de bem consigo e com o Universo”.
Perante isto, você, como já me dissera a mim, você “a quem ofereciam, agora, um papel agradável” e de quem “para rematar o final feliz, esperavam o aceno concordante e a frase bonita acerca da fraternidade humana(...)Qual a diferença entre uma vela acesa à santa ou a um deus com seis braços?”, você optou de novo pela coerência, a sua coerência, optou pela fidelidade ao Filho de Deus, que disse um dia a frase que você e eu amamos tanto: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”.
Pensei um bom bocado no que escreveu e sobre como eu reagiria no seu lugar. Eu até lhe posso dizer que mantenho uma certa reserva mental perante o fenómeno de Fátima, que nada acrescentou à minha condição de católico. Não deixo contudo de reconhecer que das poucas vezes que lá fui, nunca em dias de grandes cerimónias mas sim em dias vazios e despidos de significado, sempre saí de lá impressionado com a espiritualidade do lugar em si, apesar daquele folclore todo à volta dele.
Mas voltemos ao Paresh. Eu tenho a certeza que se fosse a mim que ele tivesse dito aquilo, eu, pelo menos moralmente, teria-o abraçado comovido. E sendo assim, aquilo que me questiono é tão simplesmente isto: serei eu menos coerente na minha Fé em Cristo do que o Pedro? Vale a pena demorar-me um pouco com esta questão.
É certo que, devido a esta minha sanha ecuménica, eu saiba talvez um poucochinho mais sobre o Hinduísmo do que você, Pedro. Sei por exemplo que o Hinduísmo, que descende duma tradição religiosa antiquíssima, 4 ou 5 vezes milenar, não é rigorosa e simplesmente uma religião politeísta. O Hinduísmo é o resultado da miscigenação das antiquíssimas tradições védicas arianas (que seriam monoteístas) com as tradições religiosas dravidianas existentes na Índia antes da ocupação ariana. É talvez por isso que o Hinduísmo, com as suas Grande e Pequena Tradições, tem uma essência monoteísta com uma aparência politeísta. Com efeito, acredita-se num Eu Universal (Brahman) mas veneram-se as suas múltiplas manifestações ou avatares, algumas das quais efectivamente representadas com seis braços. No hinduísmo como noutras religiões, como a nossa, como sobretudo a minha, há uma diferença visível entre a essência da fé, não inteligível para todos, e as múltiplas manifestações e figurações da fé da gente simples que precisa de ter uma noção sensorial daquilo em que acredita.
Este paleio todo não se destina a mostrar a minha erudição sobre o hinduísmo, a qual aliás se resume a pouco mais do que isto. Destina-se sim a dizer-lhe que para mim o hinduísmo é uma religião merecedora pelo menos de todo o respeito intelectual dos que reflectem sobre a fé dos homens. Mas adiante.
Voltemos sim à questão da coerência de quem tem Fé em Cristo. Deixe-me dizer-lhe que Cristo, que viveu e morreu com absoluta coerência, nem sempre falou com coerência: há momentos de profundo amor e mansidão mas também há trechos terríveis, duros, exigentes, que ainda hoje nos confundem e que exigem muita interpretação para os aceitarmos. Contudo, eu sei do fundo do meu coração que Cristo falou sempre com verdade, com a Verdade do Pai.
Quero com isto dizer que a nossa coerência tem um valor relativo, não é um fim em si mesmo, sobretudo para quem, como eu, não consegue ainda entender a Verdade de Deus na sua plenitude. Onde se exige coerência é, aí sim e falhamos tanto, entre aquilo que acreditamos e a forma como o vivemos.
Tendo tudo isto presente, eu volto a dizer aquilo que já várias vezes aqui disse: eu, você, nós somos herdeiros de Cristo. Foi por Ele, pela Sua vida e morte, pela Sua Palavra que Deus se nos revelou como Pai que nos ama. E nós conhecêmo-lo porque somos também herdeiros do contexto cultural, civilizacional, étnico, geográfico, político onde Ele surgiu, viveu e morreu por nós.
Ele foi a prova maior do amor de Deus por nós, humanidade criada à sua imagem e semelhança. E, face à evidência desse amor, eu não posso simplesmente aceitar que Deus tenha reservado apenas para uma parte dos seus filhos o caminho da salvação, o caminho que conduz até Ele.
É pois por isto que não vejo qualquer incoerência, qualquer falta de verdade da nossa Fé, em aceitar que outras religiões possam também ter em si sementes de Verdade Divina, sementes apropriadas para se desenvolverem nos "terrenos" onde surgiram essas religiões.
A Palavra de Cristo foi para mim uma semente que me transformou e me aproximou do essencial. Todos os homens tem direito a uma semente que neles, na sua natureza, possa produzir fruto.

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