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segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Aquilo que verdadeiramente interessa 

É inequívoco que os blogues cristãos, católicos e sobretudo evangélicos, tem ganho uma certa projecção na blogosfera. A questão do aborto sem dúvida catalizou isto e nas últimas duas semanas sentiu-se uma certa irritação na blogoesquerda ateia, republicana e laica. Houve também, até com a participação deste humilde blogue, muita “fundibulagem” entre católicos e protestantes, a propósito da unidade dos cristãos mas sobre as diferenças que nos separam. Ora, neste fim de semana dediquei uma boa horita a rever o que tenho escrito mas também o que tem sido escrito por outros. Reli também uns mails que recebi e fixei-me num deles, duma leitora das primeiras que tive, a propósito dos meus posts sobre aqueles ateus e ateias. Dizia ela que se tinha rido bastante com esses posts mas que não se tinha sentido muito bem com esse facto pois permanecia no seu espírito a questão sobre como é que nós cristãos devemos reagir com aqueles senhores e senhoras do fundamentalismo ateu? E acrescentava ela que melhor do que a ironia era o sorriso de Deus nosso Pai perante a sua Humanidade. E, de facto, ela tem toda a razão: é desse sorriso que os Cristãos devem dar testemunho em vez de desprezos orgulhosos, mesmo que suavizados pela ironia. A ironia é uma virtude somente humana, nada tem de divino.
De facto não é nada fácil dar testemunho de Cristo permanecendo-se inteiramente digno do testemunho que se está a dar. Já num post antigo eu o tinha referido: “Nós cristãos não devemos guardar connosco a nossa Fé. Devemos mostrá-la, explicá-la, vivê-la perante os outros. É nossa obrigação tentar que o nosso próximo receba como nós a graça da Fé, não por proselitismo estéril, mas simplesmente por amor a esse próximo. Acontece porém que isto não é fácil e por variadíssimos motivos. Um deles é a enorme dificuldade de falar sobre a Fé que nos anima sem nos colocarmos, insensivelmente, involuntariamente, num plano superior ao do nosso interlocutor. Nós temos a graça, a iluminação e eles não e, portanto, instala-se logo um desconforto que elimina toda a receptividade. Isso acontece, não só por uma natural reacção epidérmica do interlocutor, mas também porque aquele subtil arzinho de superioridade que ,às vezes e sem o querer, arvoramos contradiz totalmente a essência da nossa Fé”.
Esta reflexão voltou ao meu espírito a propósito do tal mail que recebi e de várias coisas que vi escritas por vários blogues que muito respeito. E dela surgiram-me novamente dúvidas perturbadoras: como falar de Fé a quem não a tem, e a quem tem uma Fé diferente da nossa? Por coincidência , ou talvez não, a 2ªleitura da missa deste domingo deu-me a resposta pela voz, sempre ela, de S.Paulo. É um dos seus textos fundamentais pois se o perdermos de vista, nós Cristãos, não o seremos mais do que nominalmente.
Curiosamente, já o estimável Lutz tinha-nos relembrado isto na semana passada.
E é disto que eu estou a falar:

Ainda que eu fale as línguas dos homens
e dos anjos, se não tiver amor,
serei como o bronze que soa ou como
o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o Dom de profetizar
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto
de transportar montanhas,
se não tiver amor, nada serei.

E ainda que eu distribua todos os
meus bens entre os pobres
e ainda que entregue o meu próprio
corpo para ser queimado,
se não tiver amor,
nada disso me aproveitará.

O amor é paciente, é benigno,
O amor não arde em ciúmes,
não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvinientemente,
não procura os seus interesses,
não se exaspera,
não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.
tudo sofre, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta.

O amor jamais acaba.
Mas, havendo profecias, desaparecerão;
havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, passará.
Porque em parte conhecemos,
e em parte profetizamos.
Quando, porém, vier o que é perfeito,
o que então é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como um
menino, sentia como um menino.
Quando cheguei a ser homem,
desisti das coisas próprias de menino.
Porque agora vemos como em espelho,
obscuramente, e então veremos face a face;
agora conheço em parte e então,
conhecerei como sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a Fé,
a Esperança e o Amor.
Estes três.
Porém, o maior deles, é o Amor.”

(Paulo: 1ª Carta aos Coríntios, 13)


Nós cristãos não podemos permitir que a força das nossas convicções, a veemência da nossa dialética, a urgência de darmos testemunho da Palavra, nos desvie daquilo, que pelas próprias palavras de Cristo, é a principal coisa que Ele nos pede: "Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei".
É bom relembrar este facto simples, até porque estamos sempre a esquecê-lo. Até porque se o nós o esquecermos, se nós não vivermos assim, quem o virá relembrar aos Homens?

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