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domingo, fevereiro 22, 2004

Crítica da Razão pura 

Caro Carlos Esperança,

Agradeço o ter-se dado ao trabalho de responder ao meu comentário ao seu post sobre a dita "venerável Alexandrina", sobretudo tendo em conta que ele não era muito agradável. Isso mostra fair-play e seriedade da sua parte. De facto o meu comentário não foi muito agradável por uma razão bem determinada e que lhe irei explicar.
Eu tenho Fé mas já houve tempos em que não a tive. Por isso nada me move contra agnósticos e ateus, até porque actualmente o mais fácil e o mais provável é ser-lo. Agora, meu caro Carlos, se me permite que o trate desse modo, há no vosso Diário de uns ateus algo que me incomoda e me perturba quanto à vossa forma de o serem. Há algo de congregacional nos vossos ENA, há algo de confessional em vós quando celebram os vossos "santos" (Darwin, por ex.) e quando nos contam como foi a revelação do poder da vossa razão que vos iluminou quanto à inexistência de Deus. E há algo de fundamentalista na vossa afirmação como ateus. Sinceramente, acho que se um crente consciente não pode afirmar a sua certeza na existência de Deus, um ateu que o seja pelo uso da razão e não da paixão ou de qualquer iluminação mística, também não deveria poder afirmar a certeza da não existência de Deus. Deixe-me que lhe diga que conheço e sou amigo de muitos ateus mas em todos eles, como em mim, existe a consciência ou a humildade de reconhecer a incerteza quanto a esta questão. Mas em vocês não. Vocês não tem quaisquer dúvidas! Vocês simplesmente sabem que Deus não existe! E isso, como muitas outras coisas (daí o nome do meu blogue), isso deixa-me perplexo.
Há outra coisa que, acima de tudo, me incomoda e perturba ao ler o vosso blogue. E incomoda-me porque a acho inestética e, também, não ética. Eu explico. Vocês defendem o primado absoluto da razão humana. Defendem que é a razão que deve nortear a vida do Homem e a evolução da Humanidade. E como deixa claro na sua referência às paupérrimas habilitações literárias da pobre Alexandrina, vocês sabem bem que o uso da razão não é igual para todos. Há quem não passe da 1ª classe e há quem, como o seu colega André Esteves tenha aprendido sózinho aos 12 anos a programar em BASIC e que, mais tarde, por uma revelação epifânica da sua poderosa razão pensante, tenha chegado também sózinho à resolução do algoritmo de Erastótenes. E naturalmente, são esses, os de razão clara e poderosos recursos intelectuais, são esses a quem caberá determinar o curso da Humanidade. Temos pois algo interessante: os ateus e ateias, que sabem que a razão irá sempre prevalecer, que desmantelam as incongruências do clero da ICAR, esses iluminados, esses beneméritos, reinventaram uma nova Teocracia, uma teocracia sem Deus, uma logocracia daqueles que foram priveligiados com a luz da inteligência. São eles os alfas mais mais de Huxley.
Estamos talvez no limiar da vossa Era. A glória e o poder sejam vossos ó ateus e ateias da razão pura! Louvados sejam Darwin, Kant, Russell, louvados sejam todos aqueles que endireitaram as veredas do vosso caminho! E ai de vós, ó pobres de espírito! O reino que vos prometeram foi-vos retirado! A partir de agora só vão apanhar bonés! E bem aventurados sejam os inteligentes e os ricos na razão!
Caríssimo Carlos, é possível e provável que eu esteja a ser injusto consigo e convosco. Estou seguramente a ser um pouco áspero. Peço desculpa por isso. Mas de vós só conheço aquilo que escrevem.

Um abraço de quem tem fé e por isso não tem certezas.


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