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segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Religiões comparadas 3 

Confesso a minha impaciência para que o Nuno Guerreiro continue os nossos diálogos inter-religiosos. Apesar do desacordo de alguns irmãos cristãos eu continuo convencido que a procura da natureza essencial comum a todas as religiões é um dos caminhos mais remuneradores para o fortalecimento da Fé dos crentes. Ainda hoje li um texto muito interessante de António Barahona, grande conhecedor do Islamismo e Hinduísmo: "Babel significa literalmente Porta de Deus. Os homens detentores da linguagem única, primordial, não conseguiram o seu intento (a construção da Torre) e ficaram sujeitos à diversidade verbal. Há pois muitas línguas mas o sentido é só um, tal como há muitas religiões e um único Deus. A multiplicidade das línguas, no plano humano, coexiste com a Unidade do Verbo no plano divino".
O 2ºpost do Nuno foi para mim uma surpresa.
Com efeito, não imaginava que o misticismo da Cabala tivesse hoje um lugar tão importante no edifício da Fé Judaica. Surprendeu-me verificar que a exegese da Torah é feita à luz metafísica do Zohar e das teorias de Luria. Significará isso que a construção exegética do judaísmo é fundamentalmente mística? Curiosamente no Cristianismo Romano, a exegese foi essencialmente neo-platónica, ou seja predominantemente racionalista. As interpretações mais místicas foram muitas vezes perseguidas no seio do cristianismo. E pensava eu que no Judaísmo da catedrocracia também era assim.
Outra coisa que me surpreendeu completamente foi a questão da reencarnação e transmigração das almas. Ignorava completamente que esse conceito existisse no Judaísmo. Estranhamente, aquilo que o Nuno escreveu sobre isto e sobre os fragmentos da alma única e primordial faz-me lembrar muito o hinduísmo.
Achei muito curioso fazer um paralelismo com as cinco partes distintas da alma, tal como vem no post da Rua da Judiaria, presumo que da alma primordial, de Adão, que “depois de ‘ter comido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal’, a sua alma fragmentou-se em milhares e milhares de pedaços [faíscas] – fragmentos e fragmentos de fragmentos – que subsequentemente viriam a encarnar em cada ser humano que nasceu até hoje e que ainda nascerá”, fragmentos esses que, deduzo eu, tenham em cada pessoa proporções desiguais daquelas cinco partes distintas. E esse paralelismo é com as castas do Hinduísmo. A doutrina hindu ensina que nos primórdios havia uma única casta , hamsa, com um grau de espiritualidade muito elevado, hoje excepcional mas então comum a todo o homem. Depois da ruptura da unidade primordial entre Brahman e os seus seres, estes agruparam-se por quatro castas ou varnas: os Brâmanes, os Kxatriyas, os Vaixias e os Sudras por ordem decrescente de espiritualidade e proximidade com a Doutrina e o seu conhecimento. A estas castas foram atribuídas funções sociais: cada qual com o seu Karma. Segundo o Hinduísmo, se cada indivíduo cumprir o seu Dharma, isto é a natureza e função essencial de acordo com o seu karma, ao morrer ele reencarnaria num nível superior, espiritual e social, subindo de casta até alcançar a unidade perfeita, a identificação absoluta com Brahman. Há aqui qualquer coisa de muito parecido com a frase do Nuno: "Após a morte, parte da alma é “reciclada” e volta a encarnar, de forma a efectuar as correcções (Tikkun) necessárias para que possa cumprir o seu destino final de reunificação ao Criador".

Termino pedindo desculpa a quem me leia por estas derivas metafísicas, mas trata-se de algo que me interessa muito enquanto cristão.
E Nuno, vamos aí!


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