<$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Sagrada Violência ou Jesus Segundo Mel Gibson 

Pede-me o Nuno para comentar as impressões que lhe ficaram do visionamento da Paixão de Cristo segundo Mel Gibson. Devo confessar que resisti um pouco a fazê-lo porque o facto é que ainda não vi o filme embora tenha lido alguns artigos, bem díspares, sobre ele. Suspeito por outro lado que o filme que verei será diferente daquele que viu o Nuno. Tanto quanto me apercebo o nosso Mel ainda não decidiu qual vai ser o final cut. Ele está preocupado com a receptividade que o filme vai ter e anda por aí a promover visionamentos a audiências seleccionadas para ir analisando reacções. De certa forma, lamento que assim seja. Concorde ou não com a visão de Gibson, eu gostaria mais de ver a versão que ele queria que víssemos do que uma versão cortada ou acrescentada devido às reacções de outrem. Mas adiante.
Dizia eu que preferia não comentar algo que não vi. Todavia o grande respeito que me merece o Nuno bem como a densidade do post que ele faz sobre este assunto leva-me a pôr aqui alguns comentários.
Primeiramente queria dizer que a Paixão de Cristo, independentemente do modo como fosse filmada, ao sê-lo iria sempre provocar fortes reacções nos meios não cristãos e até mesmo nos meios cristãos. Muito já foi escrito sobre o carácter mórbido duma religião em que o seu ícone supremo é uma cruz com o corpo macerado e sangrento do objecto da sua adoração. De facto esta imagem central do cristianismo pode provocar estranheza, mesmo repulsa intelectual, emocional ou estética de quem está fora da nossa Fé. Acontece porém que é na Paixão que reside o carácter mais essencial, a beleza mais transcendente, o carácter mais distintivo da nossa Fé Cristã. Não pela imagem física, corporal, que dela nos tem sido feita, mas pelo significado profundo que ela tem. Mais do que tudo o resto, a epifania, a encarnação, a ressurreição, a ascenção aos céus, é a Paixão de Cristo o elemento central, definidor da Fé Cristã. E isso, por muitos não é percebido. É pois neste ponto que me vou demorar um pouco.
Comecemos pelo princípio. Ou pelo fim, pois a minha teologia amadora tem dificuldades em distinguir um do outro.
Tenho para mim que uma das coisas que mais distingue o Cristianismo das duas outras grandes religiões monoteístas, o Judaísmo e o Islamismo, é a forma de encarar Deus e a maneira como Ele se relaciona com o Homem. Para os cristãos, penso que diferentemente daqueles nossos irmãos crentes, Deus é o Senhor, sem dúvida, com todos os atributos de omnipotência e omnisciência que aprendemos a respeitar, mas Deus é sobretudo Pai, nosso Pai, no sentido que nos criou à Sua imagem e semelhança, como filhos portanto. E é nessa condição que nos ama e quer que O amemos. Nós acreditamos que Deus nos criou não para simplesmente o adorarmos e glorificarmos, para nos submetermos à sua Vontade revelada. Nós acreditamos que Deus ao criar o mundo quiz que nele existissem seres cuja natureza contivesse algo Dele próprio, quiçá pelo prazer de ver a sua natureza profunda desenvolver-se no Homem sem os atributos de omnipotência, omnisciência, etc. É assim que eu entendo hoje o “à Sua imagem e semelhança” do Génesis. Somos pois filhos de Deus pois contemos em nós algo Dele. E por isso somos amados como filhos. Por isso Ele quer ser amado por nós, como Pai que é. Por isso ele quer que a nossa vida neste mundo seja um caminho de regresso a Ele.
Este atributo paternal de Deus é importantíssimo na minha fé de cristão e católico e só o apreendi plenamente quando tive a oportunidade de, eu próprio, ser pai. Foi nessa altura que descobri em mim o amor paternal, foi nessa altura que percebi plenamente a intensidade e incondicionalidade do amor dos meus Pais por mim. Foi nessa altura que senti profundamente que a relação de Deus comigo é uma relação Pai-filho. À medida que me fui compenetrando da minha condição de pai, fui descobrindo em mim e em relação aos meus filhos, um novo tipo de amor totalmente diferente de qualquer outro. É um amor que se satisfaz pela dádiva de nós próprios, é um amor que se contenta no reconhecimento daquilo que de nosso há na natureza dos nossos filhos, é um amor que quer vê-los desenvolverem-se na sua plenitude de pessoas, é um amor, talvez a única forma de amor, capaz de nos fazer dar verdadeiramente a vida por outrem.
É precisamente daqui que vem a importância da Paixão de Cristo na Fé dos cristãos, mais do que qualquer palavras ou manifestações Dele enquanto viveu entre nós. Com efeito a paixão e morte do Filho de Deus, a entrega à morte pelas mãos dos homens da pessoa encarnada de Deus, é a suprema demonstração do amor que Deus tem por nós. Para que a Palavra de Cristo, que indica aos homens que nele creem o caminho da Salvação, para que essa palavra assumisse total coerência, para que a imagem de Si que Deus nos quer dar fosse totalmente compreendida pelos homens foi necessária a oferta da vida do Seu Filho, elemento integrante da entidade de Deus. Não é a encarnação de Deus entre nós, não é a sua ressurreição que mostra o amor de Deus por nós: apenas mostram o Seu poder inerente à Sua condição divina. O que mostra verdadeiramente o amor de Deus por nós é a Sua morte às nossas mãos. Reconheço que isto não deve ser fácil de entender sem ser à luz da Fé mas é assim que a Morte de Cristo é fonte de Vida para quem nele crê.
Sendo assim nunca é demais contemplarmos a Paixão, esse momento supremo. Nunca é demais contemplá-la como ela aconteceu, como ela nos foi descrita. Nunca é demais naturalmente para nós cristãos pois é a nossa Fé que essa visão fortifica. É por este facto que, ainda sem ter visto o filme de Gibson, pensando que se ele se ateve na descrição dos evangelhos, por muito violentas que sejam as imagens, o visionamento em filme do sofrimento extremo da pessoa de Cristo, feito à luz da nossa Fé, pode ser edificante para esta. Repare-se que por muito violenta que tenha sido a morte de Cristo, não o foi mais do que a de incontáveis milhões de homens ao longo da História. E também isso a carrega de significado.
Agora teremos de admitir que para para os não Cristãos, para quem a Paixão de Cristo é algo difícil de entender, algo de chocante, absurdo e contraditório, para todos esses, este filme e tudo o que envolve não deve trazer nada de positivo, nada que os aproxime da palavra de Cristo.
E é nesse sentido que, insisto, sem ter visto o filme, me questiono sobre a oportunidade de ele ser lançado no circuito normal de distribuição de cinema, exactamente da mesma forma como questionaria um filme sobre a revelação do Corão a Maomé. Isto é, independentemente dos seus méritos e eficácia enquanto agente fortalecedor da nossa fé, o facto é que a sua eficácia não é para todos, não é universal. E hoje nada é mais universal do que os circuitos internacionais de distribuição de cinema. Mas, honestamente, não é isto que me interessa quanto ao filme.
Interessam-me bem mais as preocupações que o Nuno manifesta.
É condição intrínseca e inelutável do Homem não perceber nunca totalmente bem as mensagens que Deus lhe vai revelando ao longo da História. É recorrente irmos buscar significados que não existem e descartar intenções que não nos convém. E, como sempre, à volta da Paixão de Cristo desenvolveram-se uma infinidade de equívocos, mal-entendidos, más consciências, processos de intenção e outras manifestações da natureza humana.
Uma das principais questões, que tantas desgraças gerou na história da Humanidade, foi o facto, histórico, de Cristo ter morrido às mãos dos Judeus embora não pelas mãos dos Judeus. Este facto foi muitas vezes invocado como pretexto das mais abjectas manifestações de anti-semitismo, sustentado numa leitura redutora e simplista das Escrituras. Por outro lado, da parte dos Judeus, sempre houve uma natural má consciência relativamente a este assunto, que aliás se manifesta hoje fortemente na rejeição do filme de Gibson.
A estafada questão da repartição de responsabilidades entre os sacerdotes judeus do Templo e os romanos chefiados por Pôncio Pilatos é uma questão que apenas serve para duas coisas: atribuir aos judeus um opróbio que não merecem ou afastar deles uma má consciênca que não deveriam sentir. Para simplificar, pois o post já vai longo, a Paixão e Morte de Cristo ocorreu em Jerusalém no seio do povo judeu sob a autoridade militar dos romanos, não por os judeus serem judeus ou por Pôncio ser Pilatos. Ocorreu sim porque Deus encarnou no meio dos homens e os confrontou radicalmente com o seu afastamento de Si, com os egoísmos que os desumanizam, com a falta do amor, o mandamento novo, que, só ele, permite a Salvação dos homens. O que aquela elite de sacerdotes ou aquele governador fizeram foi o que outros no seu lugar teriam feito: defender a ordem pública, a estabilidade social, usando para o efeito os meios usados na época. Como muitos outros, antes e depois, viram como ameaça aquilo que não entendiam e reagiram em conformidade.
Eles não perceberam o que Cristo tinha vindo fazer e trazer ao mundo. E por isso mataram-no. Como escreveu João no belíssimo prólogo do seu Evangelho: “Ali estava a Luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo näo O conheceu. Veio para o que era Seu, e os Seus näo O receberam”. Ora, se ainda hoje é assim, porque censurar os de então?
Ao olhar para a populaça que apupa, insulta e ridiculariza Jesus quando este carrega a Cruz para o Calvário não devemos ver nem judeus nem romanos. Devemos sim olhar muito bem e verificar se não estaremos a rever-nos a nós próprios.

Nota: Mel Gibson pertence a um grupo católico integrista que rejeita o Concílio Vaticano II e vê no Papa a figura do verdadeiro Anti-Cristo. Algo detestável portanto. Como, repito, não vi o filme não sei se nele é vertido algum do fel destas estranhas formas de cristianismo. Mas tanto quanto li o script do filme é a transcrição fiel dos Evangelhos. E é partindo dessa premissa que escrevi este post.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?