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quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Uma palavra a uma recém-chegada 

Cara Rosário,
Obrigado em primeiro lugar pelas suas simpáticas palavras sobre o Guia. Sobretudo daquela parte em que você diz: “Pode parecer parvoíce, mas na verdade, lê-lo tem sido um pouco conversar consigo”. É que é isso mesmo que eu pretendo. Fico também satisfeito pelo facto de você, sendo católica em crise de fé, sentir que o Guia a está a ajudar. Essa ajuda, penso eu que virá do facto de que, lendo o que tenho escrito, você tenha vindo a conseguir relativizar o peso da noção do estado de crise da sua fé.
Eu tenho para mim que o estado de crise de fé é uma condição inevitável, eu diria mesmo permanente, de todos os católicos e cristãos conscientes, pois a nossa fé não é uma fé fácil. Ela não se resume a acreditar: necessita também e sobretudo de ser vivida. E é daí que vem normalmente as nossas crises. Acredito porém que no momento em que chegássemos ao ponto em que achássemos que cremos exactamente da forma que devemos crer e vivemos absolutamente de acordo com isso, poderíamos estar a ser muito “católicos” mas estamos a seguramente a ser pouco cristãos. Quero eu dizer com isto que o estado de crise deve ser um estado com que nos devemos habituar a viver, por forma a que não nos afaste de Deus mas antes nos aproxime Dele. É a crise criativa! Para isto ser possível só conheço dois atributos, duas virtudes que devemos cultivar: a esperança e a humildade.
Queria também dizer-lhe que respeito o seu desejo de, pelo menos para já, o seu blogue não ser linkado. Compreendo isso lindamente: garanto-lhe que o período em que o meu blogue foi mais genuíno e honesto foi o daquelas primeiras 4-6 semanas em que eu não tinha visitantes ou pelo menos pensava que não tinha. A partir do momento em que se começa a ter visitantes regulares, mesmo sendo muito bons como é o caso dos meus (é verdade!), começa-se a ficar um pouco condicionado, nem que seja pelo sentimento de obrigação de ir postando com alguma frequência. E isso pode retirar alguma genuidade à nossa prosa.
Quanto ao que li do seu novíssimo blogue houve já duas ou três coisas que me chamaram a atenção. Uma foi uma citação de Bossuet (aos anos que não ouvia falar deste homem!): “tout ce qui se conçoit bien s'énonce clairement”. Eu, como você escreve, também “não sou capaz de passar algo a escrito sem o compreender; ou, pelo menos, ao escrever vou compreendendo, vai-se fazendo luz no meu espírito”. Acredite que esta é talvez a maior vantagem que para mim tem tido o meu blogue: obrigando-me a escrever ajuda-me a compreeender.
Outra foi uma reflexão que fez sobre a falta de qualidade das homilias que se ouvem nas missas. É bem verdade que muitas vezes é assim. Mas será que isso é razão para lá deixarmos de ir? Deixe-me dizer-lhe porque é que eu vou sempre à missa aos domingos: o ambiente nem sempre é bom, a música às vezes arrepia, a homilia pode, de quando em quando, deixar-me furioso, mas há uma coisa que é sempre boa - a leitura do Evangelho. E o facto de estarmos todos ali tem um significado profundo, mesmo que nem todos tenham consciência desse significado. E é por isso que eu lá vou.
Quanto à sua dúvida se você conseguirá, como faz o Vincent Bengelsdorff, “agradecer a Deus por tudo, mas mesmo por tudo. Agradecer a esperança plantada em mim pelo divino”, eu espero sinceramente que você, e eu também, venhamos a consegui-lo. Uma das graças maiores que a Fé nos pode dar é saber aceitar o destino, os contratempos, a doença, as desgraças desta vida, talvez não exactamente como sendo a Vontade de Deus (pois acabamos sempre a perguntar o porquê dessa Vontade) mas como o preço da Libertade que Deus ofereceu à sua Criação para que ela se manifeste na sua plenitude.
Rosário: já ouviu com certeza que tudo aquilo que não nos destrói, torna-nos mais fortes. E a Fé é precisamente aquilo que nos faz recusar a destruição pois faz-nos saber que, aconteça o que acontecer, a nossa vida vale sempre a pena pois é sempre um caminho até Deus.
Um abraço e seja bem vinda à Blogosfera, secção da Teosfera, como dizem com piada uns engraçados ateus que por aí andam.

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