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segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Vizinho revisitado 

Tenho a agradecer a um bom amigo da blogosfera o ter-me enviado backups de 3 meses do ex-blogue Vizinho do mar. Já aqui falei sobre ele e não tenho a dizer muito mais. Salvo talvez dizer que as qualidades a que eu dou mais valor são precisamente aquelas que não possuo.
Aqui vão pois uns excertos do Vizinho, para quem o não chegou a descobrir:

gosto de aforismos. talvez, por isso, leia e releia a Agustina. é bom, ao fim de trinta páginas, encontrar a frase que justifica uma esperança.

não é a morte que me aproxima da fé; é a fé que me explica a morte.

eu tenho medo das palavras. tenho um medo terrível daquilo que não digo. umas vezes, sinto que sou pecador porque me calo. outras, sei que peco na verbosidade incontida da sedução. escreve-se para seduzir. fala-se para iludir o silêncio.

nada pior do que fazer da fé um pretexto.

mas a fé está no equilíbrio da manhã. naquele interstício do tempo em que se sente a presença d`Ele. absoluta, perene e insubstituível. uma presença que se procura. ou uma inquietação que se disciplina. as dúvidas não são minhas mas d`Ele em relação a mim. a fé não é uma certeza. nem um ritual que me justifique. a fé é a plenitude da vida. por mais escassos que sejam os momentos em que adivinho essa plenitude.

nesse aspecto, os evangélicos levaram a palma aos católicos. tiveram de aprender a ler e fizeram-no com a urgência da fé.

eu expulso o meu orgulho com a minha depressão. a fé também passa pela psiquiatria.

tenho, para mim, uma trindade de inquietações: a fé é indizível; pela história, afastamo-nos de Deus; a santidade é exterior ao mundo. e, no entanto, fé, Deus, santidade, são realidades (realidades, repito) que só as palavras podem transportar.

há o risco de tornar-me uma ficção.

acredito numa vocação irremediável: a de ser disperso e inútil. sei mais do que aquilo que digo, sei menos do que aquilo que deixo silenciar. sou um asceta com filhas.

todas as dores são suspeitas. espera-se o pior, sempre.

não sou ecuménico, sou paciente.

passo o dia a escrever: ofícios, relatórios, lugares-comuns onde se jogam interesses alheios. escritas onde as palavras não me pertencem. e o que sei fazer, de uma forma escorreita e serena. pressinto que há algo de insólito no facto de, nos intervalos do silêncio, juntar palavras inabituais e pô-las aqui à consideração dos vizinhos que vou conhecendo. é como se fosse um outro eu, mais íntimo e diletante, à procura de uma verdade impossível. não tenho nome nem futuro. o que me importa é saber continuar sem uma razão aparente.

o sonho é uma ausência sem mérito. gosto das verdades inelutáveis. daquelas evidências que não consentem o arrependimento.

deve haver uma estética para a fé.

não digo verdades nem mentiras. falo por falar.

descubro que tenho uma ternura imensa pela minha mulher. o ascetismo chega-me com a idade.

sou um parasita dos links alheios. habitualmente, quando quero viajar pelos blogues, bato à porta do tiago e aproveito a boleia dos muitos links que tem referenciados. se a viagem é mais pequena, chega-me a boleia do josé. nisto dos blogues também há estratégias de sobrevivência.


Nov 03 - Jan 04

Reparei também há já alguns dias que a Maria também foi para parte incerta.
Peço a Deus que proteja a Fé de ambos.

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