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segunda-feira, março 08, 2004

Deus ex-machina 

Disse-nos ontem o Evangelho do 2º Domingo da Quaresma (Lucas 9,28-36):
Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante. E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer. Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.» Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto”.
Esta passagem da Transfiguração de Cristo, referida na Bíblia em pelo menos mais dois trechos: Mateus 17, 1-9 e 2ª Carta de Pedro 1, 16-18, é um episódio que sempre me provocou alguma estranheza. Não pelo episódio em si mas pela projecção relativamente pequena que a Igreja lhe atribuiu no corpo da doutrina cristã. Não será certamente pela incerteza do episódio: vem mencionado em dois dos evangelhos e é referido por uma das testemunhas presenciais, Pedro. Também não o será pela falta de significado teológico: no final de contas revela-se aqui a três homens escolhidos e de uma forma sensível a natureza divina de Cristo!
Talvez a importância menor que se dá a este episódio na doutrina da Igreja tenha paralelismo com a importância menor que Cristo também quiz dar-lhe: no fim de contas deixou que ele ocorresse no cimo dum monte com apenas três testemunhas em vez de optar por uma manifestação espetacular perante a multidão. Imagine-se a sensação se esta manifestação de esplendor divino tivesse ocorrido durante o julgamento ou durante o calvário de Cristo! Mas não foi definitivamente assim que Deus quiz revelar a sua mensagem aos homens. Deus não deixou a vida de Cristo terminar à moda das tragédias gregas, recusou o clássico papel do “deus ex-machina. Não, o que Deus quiz mostrar ao homens não foi o poder da sua magnificência mas a imensidade do seu amor por nós. Não resgatou espetacularmente o Seu Filho da Cruz mas deixou-o morrer lá, às nossas mãos, como se fosse qualquer um de nós. Em vez de nos ter deixado deslumbrados com a Sua grandeza, escolheu deixar-nos a imagem de Jesus que viveu absolutamente de acordo com a Sua Palavra. Escolheu deixar-nos perante o facto de o Seu Filho ter nascido e vivido no meio de nós, ter-nos oferecido a Palavra de Deus e ter sido rejeitado por isso. Definitivamente Deus não procura convencer a nossa inteligência mas procura, isso sim, converter o nosso coração. E converter significa transformar. Peço desculpa mas lá estou eu a insistir no significado central e transcendente da Paixão de Cristo: para mim o episódio furtivo da transfiguração não é mais do que mais um elemento para entendermos plenamente o significado da Paixão, para entendermos mais perfeitamente a relação que Deus quer ter connosco.
Penso que não estou a inventar nada de novo. Descubro agora mesmo uma oração da liturgia ortodoxa que diz isto mesmo. É o Kondákion:

Tu te transfiguraste sobre o Monte,
ó Cristo, nosso Deus,
revelando a tua glória aos teus discípulos,
tanto quanto lhes era possível contemplá-la,
a fim de que,
quando te vissem crucificado, compreendessem
que aceitaste livremente a tua Paixão,
e anunciassem ao mundo
que és, em verdade, o Esplendor do Pai.


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