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terça-feira, março 09, 2004

Pai para sempre 

É hoje um lugar-comum dizer que a família já não é o que era. Uma multidão de factores tem concorrido para que assim seja. Diz-se que o crescente secularismo da sociedade tem contribuído para isso, mas não estou certo que seja a principal razão. Não há dúvida porém que todas as religiões tem a família como preocupação central. E não é estranho que assim seja. Deus quer o melhor para o homem, não só para cada um, mas para o conjunto dos homens. Ora é por demais evidente a importância da família na construção humana, na estruturação social e individual. Sendo assim Deus só pode querer mais família. E isso é percebível desde o início – a Bíblia, no fundo, é uma história de famílias; o povo escolhido tem a sua representação inicial numa família; a aliança com Deus foi mantida através de elos familiares.
Mas isto fica para outros posts. Daquilo que eu quero falar hoje é do papel de pai hoje. Quando digo pai quero dizer pai mesmo, o fornecedor do cromossoma Y.
À medida que se foram rearranjando e uniformizando os papéis do homem e da mulher nas novas famílias houve, surgiu uma coisa excelente que foi o reaparecimento da figura do Pai, junto dos filhos. O pai deixou de ser uma figura distante e majestática, aproximou-se dos filhos, começou a mudar-lhes as fraldas e a acordar durante a noite por causa deles. E que coisa excelente que é tudo isso! É bom para os filhos e óptimo para nós pais que assim gozamos o nosso papel dez vezes mais do que os nossos avôs.
Houve de certa forma uma miscigenação do nosso papel com o papel de Mãe, pelo menos na educação e convívio diário com as crianças. As mães passaram a ter o mesmo pouco tempo do que nós e nós passámos a ter a mesma disponibilidade do que elas. Este facto parece-me uma coisa excelente e que devia ser socialmente preservada. Apesar disso, contrariando totalmente esta tendência, uma das raras que são mais oportunidade do que ameaça, parece que juridicamente os direitos dos pais a serem e permanecerem pais são ameaçados. Pelo menos para os nossos tribunais de família, quando decidem custódias dos filhos em caso de divórcio. Pior do que custódias: os regimes de visitas e de guarda. Às vezes mesmo que pai e mãe queiram ambos a guarda conjunta o meritíssimo juíz cria as maiores dificuldades!
Vem isto a propósito do que escreve hoje o Vincent. Estou inteiramente com ele quando diz “Quando se perde a convivência diária com os filhos, o buraco que fica nunca poderá ser tapado”. Nunca experimentei isso mas tenho a certeza de que é assim mesmo. E, enquanto cristão, orgulho-me em ouvir outro cristão a dizer: “Apetece dizer 'não perdoar', 'não esquecer'...mas, graças a Deus, isso já não está em mim. Direi antes 'dia a dia'. E repetirei 'dia a dia'. E repetirei 'dia a dia' as vezes que for preciso, nem que durante 20 anos o tenha de fazer, até que a dor já não seja rancor e eu tenha tirado o barrote da minha vista”. Ser cristão também é isto.

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