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quarta-feira, março 03, 2004

Tentações 2 

Deve ser fruto da época, quero dizer da Quaresma (e não só, como todos percebemos), mas o meu post sobre as tentações de Cristo suscitou um inusitado fluxo de mails aqui para o Guia.
Àqueles mais interpelativos quero apenas dizer que a minha intenção não foi chamar de novo o estafado assunto do filme de Gibson. Já disse que esse assunto está encerrado no meu blogue. Se assim não fosse acabava por não ir ver o filme, o que era uma pena. Não. Se falei das tentações foi simplesmente porque decidi que este ano, já que tenho o Guia, vou finalmente viver a Quaresma como um cristão deve vivê-la, isto é, meditando sobre o seu significado para a minha Fé. Por isso será possível que às 2ªs ou 3ªs feiras deste período eu me permita fazer uns postezitos reflectindo sobre o Evangelho do domingo anterior. Ficam pois avisados.
Seja como fôr surgiram-me aqui várias perguntas interessantes. Talvez a mais interessante de todas foi a do meu estimado amigo Fernando do cada vez mais excelente A Bordo, que me perguntou algo muito simples e muito complicado: o que me levou a colocar a segunda tentação na categoria de “parecer”?
Ora bem. Tenho para mim que o episódio das tentações é essencialmente a confrontação de Jesus com a sua dupla natureza, humana e divina. É nesse episódio que Jesus resolve esta questão duma forma quase definitiva: mantendo sempre a consciência da sua relação com Deus aceita sujeitar-se às contingências e leis humanas por forma a que se cumprisse a sua missão na Terra.
Voltando ao episódio, eu penso que o Diabo (seja o que isso fôr!), consciente dessa dualidade entre a profunda divindade e a profunda humanidade de Cristo, tenta-O por forma a destruir o equilíbrio dessa dualidade. Isto é, com uma mão relembra a Jesus as suas necessidades e anseios de homem e com a outra acena-lhe com a Sua omnipotência divina. E propõe a Jesus pôr esta ao serviço daquelas por forma a negar a Deus o propósito último da encarnação do Seu Filho.
É este episódio das tentações que me fez entender um pouco melhor o mistério da natureza encarnada de Cristo.
E é nesta perspectiva que entendo a segunda tentação. O Diabo (seja o que isso fôr!) mostra ao homem Jesus todos os reinos do mundo e diz-lhe que está ao alcance da Sua natureza ser Senhor de todos eles, parecer ser Ele o Deus e não o Filho de Deus, qualidade essa com que foi nos enviado. Dir-se-ia, e perdoem-me a ligeireza, que o Diabo (seja o que isso fôr!) quis lançar a desordem na Trindade Divina. É verdadeiramente aqui que Cristo nos mostra que veio exclusivamente para cumprir a vontade do Pai. E foi o que Ele fez.
Esta tentação do parecer, parecer Deus, é verdadeiramente a mais perigosa para o Homem. É ela o pecado original, pelo qual Adão e Eva foram simbolicamente punidos. Cristo, consubstancial a Deus, conseguiu resistir-lhe. Por maioria de razões nós, simples criaturas, também devemos consegui-lo.

Pensando em tudo isto descobri que o episódio das tentações de Cristo tem um significado teológico muito maior do que supunha até Domingo passado. Como me diz o Fernando este episódio “leva-nos directamente para a teologia e para o modo como entendemos a história, o sentido, e a relação de Jesus com Deus”. Exactamente. E como este meu amigo relembra: “Dostoievski justificava a sua crença em Deus pelo facto de as três tentações terem sido escritas”.



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