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sexta-feira, março 26, 2004

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Num lugar sem humanidade, aspira a ser humano.” Está então encontrada a expressão mais perfeita em português desta magnífica frase do sábio rabi Hillel. Como o Nuno referiu ela faz parte do Pirke Avot, um dos livros da Mishnah. Os judeus acreditam que os ensinamentos deste livro não são meros aforismos mas que no seu todo revelam as convicções que moldam a visão judaica do mundo e da humanidade. Estudam este livro porque exijem a si próprios, como discípulos da Torah, um elevado grau de ética e responsabilidade social (citações parciais de S.Butterfass). Encontram-se lá muitas outras frases extraordinárias, mesmo dum ponto de vista cristão como o meu. Alguns exemplos (tradução minha do inglês): “Não é o estudo da Lei de Deus que é essencial, mas sim a sua prática”, “Ama trabalhar, odeia dominar e evita intimidade com o poder”, “Qual o caminho a escolher? Aquele que é honroso e merece a honra de toda a humanidade”, “Não julgues o outro sem ter estado na sua posição”, “Quanto mais Torah, mais vida; quanto mais estudo, mais sabedoria; quanto mais aconselhamento, maior compreensão; quanto mais caridade, mais paz.”,”Quem é sábio? Aquele que aprende com toda a gente. Quem é poderoso? Aquele que controla a sua paixão. Quem é rico? Aquele que se satisfaz com a sua porção. Quem é honrado? Aquele que sabe honrar os outros.” etc., etc.
Permito-me citar tudo isto porque o meu amigo Nuno me fez “judeu honorário”. E isso é algo que, pelo facto de vir do judeu Nuno Guerreiro, me honra verdadeiramente muito. Sobretudo porque o Nuno conhece bem as minhas preocupações e reservas quanto a certos aspectos do papel que a comunidade do povo judaico está a desempenhar no mundo de hoje, sobretudo em Israel, terra que lhes foi prometida e que hoje lhes pertence.
Eu explico melhor. No incipiente edifício da minha Fé e teologia cristãs, na minha visão do mundo e da sua transcendência, o povo judeu tem um papel muito importante que não sei ainda explicar bem mas que está nos antípodas da noção de povo deícida, como muitos acreditaram e ainda alguns acreditam. Não, apesar de Jesus nos ter trazido a Nova Aliança com Deus, uma aliança nova porque universal, para todos os homens, para novos tempos históricos, eu acredito profundamente que o papel de povo escolhido para os judeus continuou a ter um sentido, desejado por Deus mas que não sei discernir claramente.
O facto de terem sido os judeus os “descobridores” do monoteísmo ético trouxe-lhes um carácter único, diferente de qualquer outro povo. Não quero alongar-me muito mas sinto há muito que a natureza e história do povo judaico, particularmente nos momentos mais difíceis, a sua capacidade de autopreservação, não só da sua existência como povo mas sobretudo do seu património ético, é algo que para mim tem uma significação transcendente qualquer.
É precisamente por isso que me dói ver aquilo em que se tornou hoje o estado de Israel, ver o que fazem aqueles que o governam. Penso naquelas frases do Pirke Avot que transcrevi acima e não entendo como é possível acontecer o que lá acontece. Sobretudo, porque acontece cada vez mais à medida que a sociedade israelita vai ficando menos secular e mais dominada pelos partidos religiosos.
Olhando o que acontece hoje e olhando também para trás, para o que aconteceu também no primeiro milénio AC, em terras de Israel, pergunto a mim próprio (e já perguntei isso ao Nuno) se o judaísmo na sua essência será compatível com a posse de Israel. Será que o esforço de a manter não preverte a natureza ética do judaísmo? O facto é que lendo Jeremias, Ezequiel, Isaías, Reis, Juízes, isso parecia ser assim já nessa altura. Olho para Sharon e lembro-me de Saúl. Comparando o judaísmo da Diáspora com o judaísmo de Sião, eu prefiro infinitamente o primeiro. Será que o pathos do povo judeu é procurar a Terra Prometida, mas não possuí-la?
Sei bem que uma das razões da génese do sionismo foi a necessidade real e legítima de criar para o povo judeu um país, um estado que o possa proteger num mundo hostil e ciclicamente persecutório. Mas pergunto-me: neste estado judeu que é Israel quem protege o povo judeu de si próprio?
Com estas reflexões, já demasiado longas, não pretendo ofender nem perturbar ninguém, mas agora que sou “judeu honorário” tenho absolutamente que fazer estas perguntas. E “quando um judeu faz uma pergunta recebe sempre uma resposta”.
Agora acabo. Tenho uma pequena cirurgia para fazer...

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