<$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, março 22, 2004

Voltar para casa (1) 

Ontem, 4ºdomingo da Quaresma, voltei a ouvir na missa a parábola do filho pródigo (S. Lucas 15, 11-32):

Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.' E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si, disse: 'Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.' E, levantando-se, foi ter com o pai. Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos. O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.' Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' E a festa principiou. Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.' Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. Respondendo ao pai, disse-lhe: 'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.' O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado'.

aqui aqui escrevi que foi esta parábola que, já no início da minha vida adulta, me trouxe de novo à Fé. Ontem, ao escutá-la de novo e ao escutar a sábia homilia do padre, comprendi de novo a imensidade da reconciliação que Deus nos oferece. A reconciliação entre os homens permite-nos quando muito voltar à situação primordial, antes do conflito e separação. A nossa reconciliação com Deus permite algo infinitamente maior: permite-nos nascer de novo, permite-nos iniciar uma nova vida e simplesmente porque entendemos enfim a infinitude do amor de Deus por nós todos.
Cristo, Filho de Deus, foi o intermediário da reconciliação entre nós e Deus. A sua morte às nossas mãos é aquilo que nos faz caír em nós e ver o decaímento da nossa condição humana. A sua ressurreição é também a nossa ressurreição enquanto filhos amados e sempre perdoado por Deus.
É extraordinário pensar que o Pai sai de casa para ir buscar para junto de si tanto o filho pródigo, que contra ele pecou, como o filho mais velho, que sempre esteve junto do Pai e que por isso se julga mais digno do Seu amor. Ninguém se pode julgar mais merecedor do amor de Deus, mas até esse pecado de soberba Deus nosso Pai perdoa. Nunca como aqui, nesta história tão simples, Cristo explicou tão bem a nossa relação com Deus. Verdadeiramente somos Seus filhos.

É curioso que se há quase 20 anos, ao escutar esta parábola, eu me senti interpelado como se fosse o filho pródigo, ontem senti-me chamado como sendo o filho mais velho. De ambas as vezes perdoado. De ambas as vezes simplesmente Seu filho.


This page is powered by Blogger. Isn't yours?