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terça-feira, abril 27, 2004

Canção do cansaço 

Passam os dias
e passam as semanas.
Do nada surgem
esperanças ufanas
que morrem na praia,
ocas, vazias, planas.
Mantenho uma calma
inútil, como escória,
sem que nada me saia
do fundo da alma
senão umas ganas
de acabar de vez,
arrumar a história
e descansar a cabeça
e o corpo e, às três
saír, sem que ninguém mo peça,
mas carregando a memória
do que podia ter sido feito e não se fez,
do que podia ter vindo e não veio.
Quisemos café, tivemos chicória.
Quisemos trigo, tivemos centeio.
Tivemos coragem, até desfaçatez,
mas não tivemos o tino,
hoje sei-o,
de ver que este era o destino
que teimava em se nos mostrar.
E por isso receio
que tudo quanto havia a dar,
já o demos, eles e nós,
ano após ano, mês após mês,
mas tudo perdemos, até a voz,
de tanto falar, vender, pedir, rezar.
E agora que estes nós
parecem estar-se a desatar
e que tudo isto parece
estar-se finalmente a consumar,
eu peço a Deus que nos ilumine
e nos dê a grandeza
de saber aceitar
o que aí vem
e nos proteja a todos,
também.


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