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segunda-feira, abril 19, 2004

O califa Omar 

Ao ler ontem no Público a tenebrosa entrevista daquele teórico do Islão radical na Europa, um tal de Omar Bakrin, e ao ver as reacções de choque e pavor que por aí tem suscitado, recordei-me de dois dos meus primeiros posts aqui no Guia, um de 17 e outro de 18 de Setembro último, sobre a ligação da religião e política no Islão. Se me permitem, vou citar o que então escrevi:
"Para o muçulmano, Deus não é Pai como para os cristãos: Deus é o Senhor ao qual devemos ser totalmente submissos (é literalmente isso o que quer dizer muçulmano) e isto em todas as dimensões da vida: pessoal, familiar, social, económica, política. No Islão não há direita nem esquerda, quando muito há literalistas (que às vezes derivam em fundamentalistas) e reformistas. Toda a acção política deve ser feita em nome de Deus, toda a legitimação do poder vem de Deus. Pensar que o Estado pode ser independente da Fé é algo importado do Ocidente, que encontrou sempre e encontra hoje enormes resistências. Como talvez saberão, o árabe é a línguagem sagrada do islamismo e nela não há palavra que se aproxime sequer do conceito do secularismo".
"O que disse ontem sobre o Islão não é uma crítica: é uma constatação sobre a sua natureza essencial. Aliás se pensarmos na génese desta grande religião universal é fácil de perceber que tenha adquirido as suas características únicas.
Maomé tem a sua revelação na Arábia, num ambiente político e religioso desagregado, dividido em múltiplas tribos e crenças pagãs , entalado entre dois fortes impérios com fortes religiões de estado: o império romano do oriente cristão e o império persa sassânida zoroastriano. Para Maomé a adesão do povo árabe à nova Fé a ele revelada passava necessáriamente pela unificação política, para o que muito contribuiu a noção tão forte da necessidade de sujeição absoluta a Deus como carácter essencial da relação entre o Homem e Deus. Sendo assim, naturalmente, Maomé tornou-se num líder político e militar. Morreu pouco após ter conquistado Meca e criado uma identidade política una no Hedjaz e deixando o Alcorão como a Mensagem Divina Revelada que substituía não só os paganismos árabes pré-islâmicos como o judaísmo e cristianismo então muito difundidos na Arábia. Deixou um conjunto enorme de preceitos corânicos de foro pessoal, familiar, social, cultural, político, que os seus sucessores transformaram em lei, a “Sharia”. Deixou também uma mensagem muito clara de que a nova religião era universal e que o mundo todo era “dar-al-Islam”, terra do Islão, isto é, devia mais tarde ou mais cedo tranformar-se em terra sujeita à Lei de Deus.
É pois evidente que a indissociabilidade entre política e religião faz parte do código genético do Islão. Os espantosos sucessos militares e religiosos que fizeram, em duas ou três gerações após Maomé, estender a terra do Islão desde a península Ibérica à China foram para os muçulmanos a prova última de que Deus estava com eles e que a sua religião tão mais simples de que as demais era efectivamente a derradeira e definitva revelação divina. A partir daí estava tudo lançado. O extraordinário desenvolvimento da civilização islâmica, como que um terreno virgem que foi beber tudo à ciência grega pré-cristã, à cultura persa e também hindu, isto numa altura de brutal retrocesso civilizacional no mundo ocidental cristão (estamos dos secs. VIII e IX DC), foi a cereja no bolo: estava encontrada a verdade definitiva sobre Deus e essa verdade estava no Corão que respondia a todas as questões que se podiam então colocar ao ser humano.
Tenho para mim que a interpenetração total de todas as dimensões humanas numa fé religiosa com a eliminação de toda a dialética entre o secular e o religioso poderá ser uma das causas principais da cristalização não só da fé como da própria civilização islâmica
".

Pois é. "Hard times are coming..."

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