<$BlogRSDUrl$>

terça-feira, abril 13, 2004

Páscoa bucólica 

Nesta Páscoa pode dizer-se que fugi. Farto destes dias de chumbo que se repetem peguei na família e desde 5ªFeira Santa até ontem estive ausente no país profundo, numa casa familiar e campestre, sem internet mas com livros e jornais, e árvores espantosas, e pássaros por todo o lado, e caminhos intransitáveis mas que levam a sítios únicos. Numa terra onde os sinais de devoção popular em Semana Santa, são omnipresentes. Numa terra onde há via sacra e vigília pascal a que todos vão. Numa terra em que o compasso palmilha quilómetros e quilómetros para a visita pascal, casa após casa, recebido sempre com foguetes, pão-de-ló e vinho do Porto. Numa terra tão longe, que está perto de sítios onde nunca iria de outro modo.
Estivemos num mosteiro beneditino anterior à nacionalidade, quase em ruínas, escondido num vale belíssimo e junto ao ribeiro mais belo que alguma vez vi. Sente-se ali uma cristandade vetusta que procurava certamente aí a paz e a discrição, talvez o esquecimento. Respira-se ali ainda uma espiritualidade diferente daquela que é possível hoje mas que se sente ainda pois tudo aquilo parece eterno. O mosteiro está num local de tal forma remoto e isolado que praticamente não vimos mais ninguém para além do nosso grupo. Enfim um bálsamo para um Sábado de Aleluia a não esquecer.
Mas também li um bom bocado. Até jornais. E li coisas interessantes, profanas e não profanas.
Li um excelente artigo do António Barreto em que ele diz algumas coisas sábias: "Há tempos assim, em que nos querem encostados à parede, em que vivemos rodeados de círculos de fogo, em que a razão é substituída por um qualquer automatismo, em que o pensamento mecânico vive do preconceito e da dependência e em que o cliché e a banalidade substituem o esforço de raciocínio rigoroso e independente."; "Sou ocidental, considero que a dita civilização do mesmo nome é a principal obreira, nos tempos modernos, da liberdade e da dignidade do indivíduo, sendo também a que, nos últimos séculos, mais contribuiu para o desenvolvimento da cultura e das ciências. Penso também que, mau grado horrores recentes conhecidos, pertencem a essa área do mundo praticamente todos os exemplos de vida decente. Sei que esta civilização está sob ameaça séria, dos seus próprios defeitos, com certeza, mas sobretudo dos seus inimigos, que a querem simplesmente destruir e conquistar....Nem me reconheço na hipocrisia suicida de grande parte dos políticos europeus que, perante o terrorismo e as ameaças contra o mundo ocidental, escolheram a complacência e a cedência como estratégia da sua eventual salvaguarda. Considero-os, europeus de direita e de esquerda, tão responsáveis quanto os americanos na catástrofe iraquiana e no impasse palestino e israelita.....Sou de esquerda mas não me reconheço nas políticas ditas de esquerda em vigor no meu país. Não partilho a sua agressividade boçal, nem a sua arrogância própria dos "moralmente superiores" e dos "intelectualmente dotados". Não me revejo na sua dúplice atitude ou na sua complacência criminosa diante da violência e do terrorismo. Não aceito a sua permanente vontade de gastar o que não se produz e distribuir o que não se poupou".
Li também com interesse profilático a prosa dum capitulacionista a querer ser porta-voz. Um monumento...
E li muita coisa interessante sobre a Páscoa dos cristãos. Tenho até a impressão que nunca se escreveu tanto sobre a nossa Fé. O bom Frei Bento escrevia sobre Ressurreição e insurreição. E escreveu coisas interessantes: "No entanto, assim como me parece absurdo pensar que Jesus tenha alguma vez renegado o judaísmo, também me parecem exageradas as tentativas para o domesticar e alinhar apenas pelas preocupações do judaísmo do seu tempo. O comportamento de Jesus revelou, em gestos e palavras, uma teologia da graça de Deus tão radical - acolhendo todos os excluídos com amor incondicional - que não cabia em nenhum esquema segregacionista. Realizou, no singular mais restrito, o infinito do dom. O Deus de Jesus não dependia da lei de Moisés"; "Jesus passou a sua existência terrestre - segundo o que dela sabemos - numa insurreição permanente contra tudo o que degrada a vida humana. Essa insurreição era para ele uma questão de obediência à vontade de Deus e dela se alimentava. O Crucificado, o rejeitado por uma coligação de interesses, abriu, a todos, o caminho e o processo da ressurreição. Jesus, ao perdoar aos próprios inimigos, ao entregar nas mãos do Deus vivo aqueles que o entregavam à morte, consumou a sua insurreição contra tudo o que degrada e separa os seres humanos, isto é, o poder do ódio, o poder da morte. A partir daquele momento Jesus Cristo era, é e será para sempre uma vida dada". Muito bem visto.
Dois dias antes tínhamos João Bénard da Costa no seu melhor: "O que Cristo diz a Madalena - e diz a nós todos - é que o Mistério da Sua Ressurreição é intocável. Mas que um dia também a carne, toda a carne, ressuscitará. Por isso mesmo diz o nosso credo "Creio na Ressurreição da carne" tanto quanto "Creio na vida eterna". Uma e outra não são separáveis para quem celebrar, nestes dias, a Páscoa da Ressurreição e a vitória sobre a morte".
E no meio de tudo isto tempo ainda para saber de mais tentativas, redutoras e irritantes, para fazerem de nós cristãos anti-semitas na nossa essência: aqui e aqui. A mim já me começa a cansar esta tendência...
Enfim foi uma Páscoa em, como já disse, fugi. Mas não de mim próprio nem dos meus nem da minha Fé. Uma boa Páscoa portanto. Dou graças por isso.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?