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terça-feira, maio 25, 2004

Ascensão e compreensão 

Tinha já preparado um textozito sobre a Ascenção de Cristo, celebrada na liturgia de Domingo passado. Contudo e felizmente, passei os olhos por um texto do Frei Bento Domingues. Ele diz aquilo que eu queria dizer mas di-lo muitíssimo melhor do que eu. Por isso vou transcrevê-lo:

(...)na liturgia católica, celebra-se a "Ascensão de Cristo ao Céu". O Ressuscitado flutua e desaparece encoberto por uma nuvem. Os discípulos fixam-se num céu que os perde (Act 1,1-11). Na era espacial, esta festa pode prestar-se a incontroláveis derivas da imaginação e a equívocos que a podem tornar ridícula. Importa, por isso, pensar na significação cristã dessa extraordinária figuração simbólica para os dias de hoje.
É por ela que começam os Actos dos Apóstolos, a grande narrativa das origens do cristianismo. É introduzida por uma pergunta dos discípulos que deixou o próprio Cristo de boca aberta: "Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?" O Mestre verifica que eles não aprenderam nada. A esperança que tinha renascido com a sua ressurreição não passava afinal de um retorno aos velhos sonhos de um Estado teocrático que ele tanto combatera ao longo dos anos. Diante dessa pergunta, Cristo concluiu que não adiantava insistir. O conhecimento que entra pelos ouvidos, os sinais que entram pelos olhos precisam de um receptor que seja apto a captar a sua significação espiritual. Sem ele, como dizia Tomás de Aquino, o próprio Evangelho torna-se "letra que mata".
Jesus sabia, aliás, o que tinha acontecido com ele próprio: só o Espírito de Deus conseguiu mudar radicalmente o rumo da vida que levara em companhia de João Baptista. Sem a obediência ao impulso e à graça do Espírito Santo, os discípulos de Cristo e os dirigentes das comunidades cristãs nunca conseguirão vencer duas tentações persistentes: os sonhos do poder e a "espiritualidade" alienante.
A este respeito, a narrativa da Ascensão é espantosa: os discípulos, já depois de Cristo ter desaparecido, continuam a olhar para o Céu esperando de lá as soluções para a terra. São figuras celestes - "os dois homens vestidos de branco" - que os interpelam de forma cruel: "Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu?"
Não tem sentido perder-se em conjecturas acerca do desígnio insondável de Deus sobre o futuro do mundo: deixai a Deus o que só a Deus pertence. Esta hora é de convocação geral da Igreja para o testemunho: "Recebereis a força do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria, e em toda a Terra."


Muito bem dito.

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