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sábado, maio 01, 2004

O valor das palavras 

Anda alguma blogosfera excitadíssima com um novo desígnio de limpar a língua portuguesa de expressões e palavras inúteis. Isto deve ser preocupação de gente muito letrada. Eu, que sou apenas engenheiro, sempre senti falta de palavras, sempre tive a noção de que a nossa língua tem palavras a menos. E que as expressões, por mais estúpidas que sejam, ilustram bem a nossa identidade, penso eu de que...
Mas porque estou eu a dizer isto? Acontece que, por razões que serão inteligíveis para os leitores mais atentos, ando a ler Ruy Belo (pela primeira vez na vida...). E hoje li dele algo interessante sobre palavras:

"Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu – eu e os meus irmãos – sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, sem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim, Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar – e de se ficar – pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei."

Ruy Belo

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