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quarta-feira, maio 12, 2004

Post neo-realista sobre Fátima e mais algumas coisas 

Pergunta o David Bengelsdorff sobre Fátima, de Ourém: o que fazer com a senhora de meia idade, que através do sacrifício e da dor, pretende negociar com o Deus da Graça?

Presumo que estejas a falar daquela senhora de 57 anos que vem de S.Pedro do Sul. É gorda essa senhora e tem umas varizes monstruosas e uns pés disformes que lhe transbordam dos sapatos cambados. E é ignorante, coitada, nem a 4ªclasse tem. O marido morreu-lhe em França, há 15 anos, nem chegou ela a perceber de quê. Deixou-lhe apenas a casita, por acabar, a pensão que recebe, dois filhos que já se piraram e um outro que, pobrezito, fica todo o dia a babar-se numa cadeira de rodas que já nem roda. E deixou-lhe também dois sogros que já nem se levantam da cama se é que aquilo se pode chamar cama. A senhora, coitada, já nem pensa nem chora, só reza à Santíssima Nossa Senhora das Dores, amiga e protectora dos que sofrem e que a espera em Fátima neste mês que é Dela. Reza também aos beatos Francisco e Jacinta que morreram tão novinhos, coitaditos, mas foram ter com a Nossa Senhora e o Menino. E a senhora anda e anda pela estrada fora com outras senhoras iguais a ela. Anda e reza e canta ladaínhas foleiras e pueris. E tudo isto para que os dois filhos, aqueles ingratos que se foram embora, deem finalmente notícias e para que o mais novo, coitadinho, fique mais compostinho e que os outros dois tomem conta dele e dela quando tiver de ser e para que os velhotes possam depressa ir ter com Deus. E, se puder ser, para que não lhe doam tanto as pernas e que consiga finalmente a consulta no médico por causa daquela maldita dor no peito que lhe vem à noitinha. E para que vá havendo sempre pão à mesa para os quatro lá de casa. A boa senhora, desta vez, leva também uma encomenda para a Virgem Maria Auxiliadora feita pela vizinha da rua de baixo que, coitada, já nem sabe como se há-de haver com os quatro filhos, todos eles metidos naquela coisa da droga e que nem a deixam saír de casa e lhe batem e a roubam.
E é por todas estas intenções que a senhora se vai para Fátima, este ano como nos anteriores, para que Nossa Senhora, que foi mãe de Deus lhe diga a Ele para a ajudar a ela que tanto precisa, e louvado seja o Senhor, nosso Pai e Filho e Espírito Santo amen.

Como tu, meu caro David, eu nunca fui peregrinar a Fátima. Também a mim, como a ti, Fátima nada acrescenta à minha Fé, uma Fé consciente e reflectida, resultado de muitas leituras de e sobre a Palavra de Cristo. Também a mim, Fátima e o seu kitsch e os seus vendilhões de insignificâncias beatas, ofendem a minha estética e a pureza da minha espiritualidade. Mas, diferentemente de ti, eu não olho com dureza os milhares de peregrinos que vão ali negociar Graças de Deus em troca do seu sofrimento.
Não. Em toda aquela gente que faz uma coisa com que não me identifico mas que eu nunca seria capaz de fazer, o que eu vejo é gente que sofre e que é imensamente digna no seu sofrimento. O que eu vejo é uma Fé, que pode ser pouco esclarecida, um pouco grotesca até, mas que é uma enorme Fé no Deus em que ambos acreditamos.
E estou certo que o Deus da Graça, como tu lhe chamas, se compraz naquela gente, reconhece a sua grandeza e se apieda das suas dores.
E isso, por si só, justifica Fátima. Acredite-se ou não. Concorde-se ou não.

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