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quinta-feira, maio 20, 2004

Um conto de Rumi 

Certo dia, Moisés ouviu um pastor que rezava de forma espontânea: “Ó Deus, mostra-me onde estás, para que eu possa tornar-me Teu servo, para que eu amarre Tuas sandálias e penteie Teus cabelos, para que eu lave Tua roupa, mate Teus piolhos, traga Teu leite, ó meu adorado! Que eu beije Tua mão amada, que eu massaje o Teu pé amado e que no momento de dormir , balance tua cama. Ó Tu, a quem todas as minhas cabras são oferecidas em sacrifício; Ó Tu em quem eu penso, lânguido e pleno de amor”. Ao ouvir a oração do pastor, Moisés, o profeta legalista, repreende-o severamente, chamando-o preverso e ímpio, por referir-se a Deus Juiz e Senhor, de forma assim tão familiar e estúpida. Para Moisés, Deus não necessitava de semelhante serviço. Diante de tal atitude, o pastor, envergonhado e transtornado, com a alma queimada, rasga suas roupas e retira-se para o deserto. Neste momento veio do céu uma revelação de Deus a Moisés que lhe dizia assim: “Separaste meu servidor de Mim. Eis que vieste para reconciliar meu povo comigo e não para afastá-lo de Mim. De todas as coisas, a mais detestável a Meus olhos é o divórcio. Dei a cada povo uma forma de expressão. (...) Não tenho necessidade de seus louvores pois estou acima de toda a necessidade. (...) Não considero as palavras que são ditas mas o coração que as oferece, pois o coração é essência e a palavra acidente. (...) Ó Moisés, aqueles que amam os belos ritos são de uma classe, aqueles cujos corações e almas ardem de amor são de outra. (...) Não é preciso virar-se para a Caaba quando se está nela. (...) A religião do amor é diferente de todas as outras religiões pois para os amantes, Deus é a Fé e a religião”. Em seguida, Deus infundiu no íntimo do coração de Moisés os mistérios que nenhuma palavra humana alcança. As palavras de Deus invadiram seu coração, transformando radicalmente sua visão. Após compreender a reprovação de Deus, Moisés corre ao deserto em busca do pastor. Ao encontrar-se com ele, diz-lhe, movido de compaixão: "Não busques regra alguma nem método de adoração; diz tudo o que o teu coração aflito deseja. Tua blasfémia é a verdadeira religião e a tua religião é a luz do espírito. Estás salvo e, graças a ti um mundo inteiro salvou-se igualmente".

(Masnavi, II Livro, 1720-1785)

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