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terça-feira, junho 01, 2004

Opiniata sobre a Concordata 

Perguntaram-me já há semanas o que pensava eu da questão da Concordata. Nada de especial, respondi eu, pois não a tinha ainda lido nem pensado sobre ela. Fiz a seguir o download dos documentos, o original e a versão upgrade (ou downgrade, segundo alguns dizem). Recolhi também alguns textos sobre o assunto, uns da Igreja e de católicos leigos a apoiar e outros de outras pessoas a contestar. Mas ainda não os li profundamente. É que comecei a carburar. Puz-me a pensar sobre a razão de ser da 1ª Concordata. O que me levou à 1ªRepública e ao Estado “mata-frades”. Mas como seriam as coisas na monarquia da Carta e do liberalismo e da Secretaria dos Negócios Eclesiásticos? Passei então pelo Eça e pelo “horrendo” Padre Salgueiro, amigo do seu alter ego Fradique Mendes. Andando mais para trás, lembrei-me das reformas do Mouzinho da Silveira e da extinção das ordens religiosas e expropriação dos seus bens. Cheguei finalmente aos piíssimos tempos de D.Maria I, do cantinho do Céu em Queluz e do Sr. Arcebispo de Tessalónica. Apareceu-me logo de seguida o Marquês de Pombal, o Iluminismo português e a expulsão dos jesuítas. Ia eu já no D.João V, na embaixada ao Papa, no Convento de Odivelas, quando disse a mim próprio: basta! Por este caminho só tenho post para depois da celebração do aniversário da Nova Concordata...
Contudo, gostaria de, ainda em tempo útil, falar das minhas primeiras impressões sobre este assunto que me deixa algo perplexo. Sinto, com efeito, alguma perplexidade em relação a este assunto, à forma como a coisa foi tratada, ao silêncio que se escuta em muitos católicos. Perplexidade também quanto à surpreendente falta de debate sobre este assunto. O facto do famoso Bloco Central ter aqui posição unânime e intervenção partilhada ajuda a perceber esta falta de debate. Ainda assim houve umas intervenções de alguns bloquistas do outro Bloco mas pareceram-me ter sido mais para consumo interno e para cumprir calendário. As respostas dos colunistas católicos foram cordatas e comedidas: defenderam a coisa no plano dos princípios invocando a defesa da Igreja e usando argumentos formalistas e convencionais. Quanto às outras confissões pouco se fizeram ouvir. Tirando um ou outro evangélico aqui na blogosfera, passaram-me completamente despercebidas quaisquer reacções relevantes.
Enfim, podemos pois dizer que a coisa tinha de ser feita, que foi feita a contento, que não houve chatices de maior, portanto não se fala mais nisso. A mim contudo apetece-me pensar um bocado mais no assunto. E depois falar nele. Não sei ainda se aqui ou na Terra da Alegria. Mas seguramente que hei-de falar da Concordata.
Para já duas reflexões preliminares, apenas.
Primeiro, quanto à reacção ou falta dela dos meios não católicos. Essa não é de admirar. É bem verdade que as coisas não devem ser tomadas pelo seu valor facial mas pelo que valem realmente e, neste Portugal de hoje, onde a grande parte da população se está marimbando para a religião, a assinatura desta nova Concordata é quase um não acontecimento, tal é a sua irrelevância material para quase toda a gente. Pese embora o peso simbólico do acto em si, mas que todos sabem ser apenas simbólico, não vai esta Concordata aumentar a influência que a Igreja Católica tem neste país nem vai sequer prejudicar mais um pouco que seja, material e espiritualmente, quaisquer das outras confissões religiosas.
Quanto à reacção dos meios católicos, ou também falta dela, essa sim já me incomoda um bocado. Tirando as vozes que se levantaram para a defesa institucional da Concordata, pareceu-me haver um grande silêncio, uma grande falta de debate, e parece-me que tal se deve essencialmente à vontade de não dar argumentos aos adversários da Igreja. E isso incomoda-me porque nós deveríamos estar-nos nas tintas para eles. Mal vão as coisas quando eles conseguem evitar que exista debate entre os católicos sobre assuntos que são relevantes para a nossa Fé e para a nossa Igreja.
E é por isso que, pese embora a informação muito incompleta sobre este assunto, não tenho problema nenhum em afirmar desde já mais uma ou outra coisa que me incomodam em todo este processo. Incomoda-me a satisfação que pressinto nos egos da hierarquia da minha Igreja, por mais este triunfozinho sobre um poder político deliquescente. Incomoda-me o peso que os aspectos patrimoniais parecem ter no acordo global. Incomoda-me o formato tipo "acordo entre estados soberanos" que faz parecer a minha Igreja uma representante de interesses estrangeiros em Portugal, coisa que não o é. Incomoda-me o facto de a hierarquia católica parecer necessitar desta coisa tão terrena para o exercício do seu ministério sagrado. Incomoda-me que a defesa de direitos adquiridos, para mais não essenciais, pareça ser um fim em si mesmo, sem que eles tenham relevante interesse pastoral.
Mas como já disse, isto são primeiras impressões, sem ter ainda lido com atenção todo o antigo e todo o novo texto e sem ter reflectido mais profundamente sobre tudo isto. Espero vir ainda a formular um mea culpa...ou talvez não.

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