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quinta-feira, julho 15, 2004

Coisas grandes, coisas pequenas 

Ontem, numa antológica edição da TdA, o meu amigo CC relembrou um lindíssimo trecho evangélico que eu já quase tinha esquecido:

Um fariseu convidou Jesus para comer em sua casa. Jesus foi e sentou-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade, ao saber que Jesus estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume; e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela enxugava-os com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume. Ao presenciar isto, o fariseu, que o tinha convidado, dizia consigo mesmo: Se este homem fosse profeta, bem saberia que espécie de mulher é esta que lhe está a tocar nos pés, pois é uma pecadora. Então Jesus disse ao fariseu: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Fala, Mestre, disse ele. E Jesus falou assim: Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro, cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais? Simão respondeu: A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: Julgaste bem. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas ela lavou-mos com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me recebeste com um beijo; mas ela, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas ela, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: os seus numerosos pecados foram-lhe perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas a quem pouco se perdoa, pouco ama. Depois disse à mulher: Os teus pecados estão perdoados. Nisto, os outros convidados puseram-se a comentar assim:: Quem é este homem que até perdoa pecados? Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: A tua fé te salvou; vai em paz.(Lucas 7,36-50)

A propósito deste trecho (que foi o objecto da tese de doutoramente do padre Tolentino de Mendonça), o CC refere também “que ele foi objecto de disputa teológica até começos do séc. XX, entre as posições católica, que via nele uma prova da necessidade da contrição perfeita para a absolvição dos pecados; e a protestante que argumentava que aí se provava que só a fé poderia ser entendida como verdadeira causa do perdão”.
Ao ler isto fiquei, como sempre, estarrecido pela absurda e bizantina subtileza das disputas teológicas! Perante a espantosa luminosidade daquelas palavras de Jesus, como é possível obscurecê-la com minúcias do tipo se é a contrição ou a fé que nos limpa dos pecados? Pois não está Jesus a dizer-nos que não há verdadeira Fé sem verdadeiro arrependimento e verdadeiro arrependimento sem verdadeira Fé e que ambos se confundem com o próprio Amor?
Ou estarei a ver mal a coisa?


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