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sexta-feira, julho 09, 2004

Crise presidencial 

Nunca pensei voltar a falar aqui de política, muito menos citando Vasco Pulido Valente. Eis um tipo que me irrita bastante, com o seu estilo de Cassandra enfurecida, e que depois de ter sido o primeiro a descobrir que "o Mundo está perigoso" tem tido uma divertida e rendosa carreira a disparar sobre tudo o que mexe, rosnando queirozianamente que este país é uma choldra.
Acontece porém que hoje o VPV tem absolutamente toda a razão. Ao lê-lo percebi finalmente que, a propósito desta crise, temos andado todos a bater no ceguinho errado! Vou transcrever na íntegra:

'Com Mário Soares nada disto se teria passado. Mário Soares não teria dito ao dr. Barroso, quando ele se quis «pisgar» para Bruxelas, que a Presidência da Comissão era tão «honrosa» que valia as responsabilidades de primeiro-ministro de Portugal. O dr. Soares não teria deixado a menor dúvida, antes de o caso vir a público, sobre se iria ou não iria dissolver a Assembleia. E, devidamente prevenido e esclarecido, o dr. Barroso resolveria então como entendesse sem qualquer equívoco ou qualquer desculpa. Sampaio, esse, não compreendeu ou não conseguiu fazer o seu papel. Desde o princípio que tornou ambíguo um caso simples. Não decidiu claramente o que vinha primeiro: se a «honra» de Bruxelas, se a estabilidade interna do País. Por um lado, achava a «honra» importantíssima, como mais tarde confessou numa conversa casual com a televisão. Por outro lado, não mediu a gravidade da crise que se arriscava a abrir, se Barroso saísse, e não pensou sequer na maneira de a anular ou limitar. Resultado: convenceu Barroso de que, mesmo se fugisse, a coligação continuava; e ele próprio foi surpreendido pela enorme hostilidade a um Governo, combinado à pressa pelos maiorais do CDS e do PSD, que ninguém elegera e muita gente execrava. Aqui, Sampaio apanhou um susto, porque de repente percebeu que a ele, e só a ele, competia escolher entre Santana e eleições. Escolher não é o forte de Sampaio. Para evitar o inevitável, ouviu uma longa série de «notáveis», manifestamente abstrusa, e convocou o Conselho de Estado. Quando chegar ao fim está no princípio. E, entretanto, sem como de costume perceber, aumentou as suspeitas sobre a conveniência e a legitimidade das duas soluções. Se ele duvidou tanto, tanto tempo, o que será connosco? Quando Sampaio tenta desatar um nó, o nó acaba sempre atado com mais força. Agora, já não escapa a dividir o País, como já não sucedia há quase vinte e cinco anos. Triste Presidente.'

É que é mesmo assim! Agora como estão as coisas, não resta senão marcar eleições antecipadas. Acaba por ser a única solução de acordo com o bom senso. E com a justiça. Mas tudo isto poderia ter morrido à nascença se o triste presidente fosse capaz de tomar uma atitude no momento em que ela se impõe e não após ter pensado em milhões de cenários e possibilidades e depois de ter falado com quase todos os portugueses com habilitações superiores ao 12ºano. Mas as eleições para o Parlamento não bastam: há que pensar seriamente na impugnação do homem por negligência grosseira no exercício das funções presidenciais. Ou por incapacidade insanável para a função.


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