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terça-feira, julho 27, 2004

Genocídio não anunciado 

No Sudão ocorre uma catástrofe de proporções bíblicas. O seu governo chefiado por um tenebroso fundamentalista islâmico, Omar Al-Bashir, vem promovendo desde há anos uma limpeza étnica das tribos cristãs da região do Darfur, a qual assume contornos dum verdadeiro genocídio. É absolutamente chocante como igualmente chocante é a falta de eco que este genocídio tem encontrado no resto do Mundo, particularmente o Ocidental. À falta de iniciativas concretas da ONU e dos grandes estados, com os EUA à cabeça, junta-se uma cobertura quase envergonhada pelos media a uma quase total ausência de reacção da sociedade civil, dos movimentos políticos e até das Igrejas. Onde estão as petições, onde estão as vigílias e os cordões humanos? Parece que a ocorrência de um genocídio só justifica a acção e agitação política desde que isso sirva as nossas causas ideológicas. Mas este caso parece não servir à causa maior de ninguém. E daí o silêncio ensurdecedor que se escuta. Este silêncio choca-me e irrita-me porque se pressente resultar dum desprezo intenso por aqueles que sofrem num sítio tão afastado da nossa geografia e da nossa mundividência. Choca-me sobretudo o silêncio dos arautos da anti-globalização e dos defensores do terceiro-mundo e dos militantes contra a exclusão. Fico com a terrível dúvida se o facto de, neste caso, os Estados Unidos parecerem isentos de culpa, não estar a contribuír para esse silêncio.
Felizmente, há quem se preocupe e se manifeste. O Nuno Guerreiro é um deles. Um grande abraço para ele. Parece que é preciso conhecer na pele o que é um genocídio para se reagir contra qualquer genocídio...
A propósito disto vou citar umas palavras da Helena Matos no Público de 19/4/03 e que deixo à vossa consideração:

Às novas sibilas nem sequer as perturba o facto de noutros locais estarem a ocorrer dramas imensos que não lhes merecem a piedade dum olhar. Porquê? Porque não foram vaticinados por si mesmas e as razões que movem os seus protagonistas não estão descritas nos livros por onde predizem o futuro. Assim nada retirará do livro do esquecimento as 966 pessoas recentemente vítimas de conflitos tribais na República Democrática do Congo pois, para os mesmos dias em que elas foram mortas à catanada, as sibilas tinham determinado que a catástrofe tinha de ocorrer no Iraque e que as armas não podiam ser facas ou catanas mas sim bombas. Estes 966 mortos estiveram na catástrofe errada. No lugar errado. E pelos vistos não merecem ser lembrados. Enquanto elas morriam no Congo, nós continuávamos à espera da prometida catástrofe no Iraque e na falta dela até se faziam títulos anunciando-a lá muito ao longe.

Realmente parece que nos comovem mais as catástrofes anunciadas pelas sibilas dos dias de hoje, que as anunciam ao sabor da sua agenda, do que aquelas que não tendo sido anunciadas, não servindo a nenhuma agenda política, estão, essas sim já em curso, bem ao nosso lado mas longe da nossa vista, bem abaixo dela.


Act.: olhe bem para isto!

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