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quinta-feira, julho 29, 2004

Job, ou o orgulho do justo 

Numa altura em que não podia estar mais saturado do meu "job", deu-me para ler e falar de Job como se viu ontem no sítio do costume. Recebi entretanto dois ou três comentários bem pertinentes, sobretudo um do meu caríssimo amigo e conterrâneo Fernando.
Que tem razão: apesar de o ter mencionado, eu não enfatizei suficientemente um aspecto importante que retirei desta minha leitura de Job: citando o Fernando, a injustiça sofrida por Job afinal não é assim tanta quanto poderíamos pensar; Job tem o orgulho dos «justos»; por isso, sofre. No entanto, quando reconhece o seu orgulho, Deus deixa de fazer pender sobre ele o sofrimento.
A partir daí, e remetendo também para os "Irmão Karamazov" de Dostoievski, o que diz afinal Job é que, para os inocentes o sofrimento não é eterno; a vida de Job, do inocente Job, o final de Job, quando é inocente, quando se torna inocente pelo seu arrependimento, é no final de contas uma prova em terra da Justiça de Deus!
Faltou-me de facto dizer isto. Um abraço pois ao Fernando.
Queria dizer também algo mais: esta leitura de Job foi para mim uma revelação de muitas coisas. Uma delas, a que mais me impressionou, foi uma inesperada identificação minha com a personagem. Também eu, como Job, tento honestamente levar direita a minha vidinha. Também eu, como ele, acabo por andar satisfeito com ela. Embora eu não possua milhares de vacas e milhares de ovelhas nem tenha sete filhos e três filhas, o facto é que tenho sido abençoado com muita coisa boa na minha vida.
E penso às vezes, quase às escondidas de mim próprio, que tenho sabido merecer essa sorte. Eu sei que é miserável mas é verdade que às vezes penso isso. E que sou um gajo porreiro e um bom pai e um tipo sério e um marido amante e um filho atento e por aí adiante...Parece até que sou eu que beneficio Deus e os meus irmãos com a minha existência.
Quando é precisamente o contrário, porra!
Que a sorte que eu tenho tido me obriga a ser um gajo muitíssimo melhor do que sou. Que os meus filhos e a minha mulher e os meus amigos e tantas pessoas por esse mundo precisam muito mais de mim do que eu lhes dou!
E no fundo, no fundo, já há muito que eu sei isto. E é por isso mesmo que eu entendi tão bem o pobre Job quando ele disse: Porquanto o temor, que temia, me veio e me aconteceu o que receava. Também há muito que eu receio que a sorte mude, apenas porque sim, porque é perfeitamente possível que isso aconteça, porque sou um filho de Deus como outro qualquer.
Rezo pois a Deus que não seja necessário que Ele me atinja com a sua mão para que eu vença finalmente esse abjecto e pecaminoso orgulho do "justo".


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