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segunda-feira, julho 12, 2004

Mystic River, finalmente 

A falta de tempo e os filhos pequenos lá em casa fazem que eu não vá muito ao cinema. Sendo assim guardo-me para filmes que penso serem efectivamente bons. E tenho por hábito não ir aos filmes logo que estreiam. Guardo-me normalmente para o fim do seu período de exibição. Talvez porque sempre preferi as salas de cinema quase vazias. O risco deste método é que por vezes o filme que quero ver sai de cena inopinadamente. Foi o caso de Mystic River. Durante meses fui observando a rarefacção das salas até que já se encontrava apenas no Corte Inglés. Foi então que resolvi ir. Mas adiei ainda por uns dias e já foi tarde demais. Fiquei então, como noutros casos, à espera do DVD.
Foi na semana passada que finalmente o comprei e vi em casa. E queria apenas dizer que fiquei absolutamente esmagado por este filme. Decididamente um dos grandes filmes da minha lista. A personagem de Tim Robbins, aquele Dave Boyle, aquele dos três miúdos que, por fatal acaso, foi o que foi levado no carro daqueles monstros, a dignidade com que ressurgiu adulto, o amor que tinha pelo seu filho, a fatalidade que o levou a expiar um crime que não cometeu, consequência remota da indignidade a que foi sujeito em criança, e o desfile final, a tristeza absoluta do filho que ficou orfão, o remorso desesperado da sua mãe, que provocou a morte de Dave por achar que o que lhe tinham feito o tornou para sempre indigno, tudo aquilo me comoveu e perturbou imenso. Tudo aquilo me fez pensar em muitas coisas. Sobretudo na forma como nós olhamos aqueles que foram verdadeiramente vítimas do Mal. A compaixão que sentimos nunca é sinónimo de proximidade, de atenção, de verdadeiro amor por aqueles que sofrem à nossa frente. Isto não devia ser assim.
Ainda ontem na missa, o fariseu perguntava a Jesus “e quem é o meu próximo?”. Esta é a pergunta fatal que quase todos fazemos quando se nos depara alguém que precisa mesmo da nossa ajuda e, como diz o Timshel, da nossa atenção. Pois Jesus não nos diz explicitamente quem é esse nosso próximo. Mas na parábola do bom samaritano, Ele é absolutamente claro: o nosso próximo é precisamente aquele que nos é mais afastado, é alguém que não conhecemos, com quem não temos empatia, que nada tem para nos dar. Esse é normalmente o outro, quiçá o que precisa mesmo de nós mas aquele de quem desviamos o olhar.
Nós arrogamo-nos o direito de construirmos a nossa teia de proximidades. E fazemo-lo com critérios apuradamente egoístas. Confundimos proximidade com semelhança: ao ajudar os que amo estou também a ajudar-me a mim próprio. Jesus pede-nos muitíssimo mais do que isso. Pede-nos, como pediu ao fariseu, que entendamos interiormente o seu conceito de “próximo”. Só assim estaremos próximos Dele.

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