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quarta-feira, julho 21, 2004

Tu quoque fili 

Entretanto o meu texto de hoje suscitou algumas dúvidas. É natural. Feito um bocado à pressa, repescando material antigo aqui do Guia, para substituír algo prometido há tempos mas que não está ainda concluído: uma monumental apologia do Sr. Cónego Melo, que dará brado por essa blogosfera afora!
Mas voltemos ao artigo de hoje. Entre outras coisas obscuras falei por lá dum tal Filioque. Pediram-me para explicar o que é lá isso. É o que vou tentar fazer.
O filioque é uma expressão usada no credo de Nicéia que esteve no centro duma daquelas estéreis polémicas teológicas mas que neste caso foi a causa formal da ruptura entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente.
Diz o credo latino: "Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem: qui ex Patre Filioque procedit." Ou seja: "Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho".
Ora o entendimento da questão trinitária teve aqui mais um episódio interessante: a Igreja Oriental, talvez ainda influenciada por algum arianismo residual, recusou o filioque ou seja que o Espírito Santo precedesse também do Filho. O patriarca Manuel II de Constatinopla propôs em 1244 uma engenhosa solução de compromisso: que o Espírito Santo precedesse do Pai por intermédio do Filho.
Isto chegou a ser aceite por Roma mas a questão misturou-se com a da autoridade papal sobre a Igreja Oriental e depois da morte dos promotores do acordo, o desejo de independência dos patriarcas ortodoxos e a arrogância de alguns papas motivaram o reacendimento da questão teológica à volta do filioque.
Os anos foram passando e a crescente ameaça do Islão sobre Constatinopla levou a uma nova aproximação em que desta vez a aceitação do filioque já estava explicitamente ligada à aceitação da supremacia de Roma. Em 1448, no concílio de Florença, chegou-se finalmente a acordo, aceitando o patriarca de então o filioque e tudo o resto . Todavia o restante clero ortodoxo, apoiado numa violenta reacção popular, acabou por voltar atrás o que culminou na separação total das duas Igrejas.
Quatro anos depois o califa Maomé II conquista Constatinopla sem que o Ocidente latino tenha sequer reagido. As sequelas perduram até hoje. A mais irrelevante de todas é que os católicos e reformados dizem hoje o Credo com o filioque e os ortodoxos não...
É caso para dizer: much ado about (almost) nothing.
Esta é uma das histórias que me fazem embirrar com as minudências das querelas teológicas e com a excessiva importância que assumiram na história do Cristianismo.
Mas quero acreditar no que o Fernando diz hoje na TdA: que "tem havido todo um longo trabalho de reposição e reequilíbrio nas posições. E que isso tem sido feito e tem levado à reposição de muito que durante muito tempo foram dados adquiridos no cerne do pensar cristão". E bom é que assim seja.

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