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sexta-feira, setembro 03, 2004

Incontinente Vontade de Gritaria 

Definitivamente este é um país patusco. De costumes brandos mas de oratória inflamada. De gente de convicções definitivas mas que não se atravessa por elas. Vem isto a propósito desta tremenda polémica propósito do “barco do aborto” que veio à nossa orla marítima reacender a inefável discussão do aborto, ou melhor da IVG, que soa muito melhor. A palavra "tremenda" não define bem pois nada neste país é tremendo. Esse conceito só tem tradução prática para lá de Badajoz. Discussão ruidosa define muito melhor.
Os meus leitores, essa dúzia de pessoas impecáveis, já terão reparado que este é um tema a que eu tenho fugido, talvez porque as polémicas me enfadam terrivelmente. Mas desta vez vou falar sobre a coisa. Esclareça-se, a princípio, a minha posição de princípio: contra. Mas permitam-me umas reflexõezitas livres sobre o grande assunto da actualidade nacional.
Antes de mais, penso que se está a fazer quanto ao aborto o mesmo tipo de debate que marca geneticamente a nossa sociedade: a demarcação dos campos em posições extremadas e acantonadas, a misturada de argumentos ideológicos com argumentos técnicos e sociológicos relativos ao assunto, o atirar de parte a parte com dados, estatísticas, números, miríficos, indemonstrados e indemonstráveis, o uso incessante de processos de intenção, a total inexistência da procura da verdade em detrimento dum esmagador desejo de afirmar posições que muitas vezes pouco tem a ver com a essência do debate. Enfim, uma salganhada inestética e irritante. O Francisco José Viegas produziu uma vez uma boa designação para a técnica de debate em Portugal: a elocubração adversativa, esmagadora e omnipresente, na política, no futebol, na religião, na cultura, em tudo. Pela minha parte tentarei neste post não caír nisso. Não será fácil pois sou tão português como qualquer um...
Queixava-se há dias o meu bom amigo Miguel que a barragem feita ao “barco do aborto” configurava uma “interrupção voluntária do diálogo”. É uma expressão feliz mas incorrecta como se verificou, pois o diálogo, aquele único de que somos capazes, foi tão ou mais intenso do que se a dita embarcação tivesse pacatamente atracado no Jardim do Tabaco. Penso mesmo que assim a vozearia terá sido maior e que os defensores da liberalização do aborto terão preferido imensamente que tenha sido assim. Aquela é gente de causas difíceis, gente que assume com gosto o papel de vítima afrontada, gente que exulta com os abusos do poder instalado, abusos que lhes dão ânimo, animação e, sobretudo, assunto. E, já agora, não tendo o barco atracado, não se mostra àquela gente simples e estúpida que fez perder aquela oportunidade do referendo, o lado feio do que lá vem dentro. E evita-se o constrangimento da romaria à doca. E, sobretudo, evita-se o risco de aparecerem apenas duas ou três potenciais abortadeiras pois a clandestinidade do aborto clandestino lida mal com os holofotes das televisões. Talvez aparecessem umas militantes exaltadas e mediáticas dispostas a tomar a pílula abortiva mas duvido que igualmente dispostas a fazer um teste prévio de gravidez...
Mas não se pense que estou do lado daquela gente, também esbraseada, de muitos dos movimentos pró-vida. Essa gente também inquina a discussão e acaba por beneficiar a argumentação dos liberalizadores com a sua rejeição de tudo, do aborto, da contracepção, do sexo não procriativo. E com a sua incapacidade de propôr alternativas, de explicar porque não estendem a sacralidade da vida humana a outros aspectos também importantes da mesma.
No meio de toda esta confusão, em que eu também me sinto mergulhado, assisti na passada 3ª feira a um debate na RTP. Participaram nele uma doutíssima e muito jurídica Paula Teixeira da Cruz; uma Manuela, cujo apelido não me recordo, verdadeiro arquétipo da militante histórica pró-aborto, daquelas que se pudessem procriariam para poder exercer o direito básico de interromper voluntáriamente a sua gravidez; uma militante portuense pró-vida, também um arquétipo, pela indigência e catatonismo da argumentação; uma surpreendente Zita Seabra, a acertar contas com o seu passado ideológico; um sociólogo Pedro Vasconcelos, pró-IVG, feliz possuidor da verdade e titular de uma persporrência e uma arrogância deliciosas ou talvez irritantes; e finalmente uma pessoa séria, um Dr. Carlos Santos Gomes, médico ginecologista de longa prática e de raro bom senso.
Disse este senhor, que me pareceu globalmente favorável à despenalização do aborto, ou seja contrário à minha posição, duas coisas extraordinárias.
Uma é que, pela sua longa experiência, há muitos anos que o aborto clandestino deixou de ser um problema relevante de saúde pública. Dizia ele (quando o deixavam falar), que os defensores da liberalização da IVG, pareciam ignorar a evolução registada nos últimos 30 anos. Segundo ele, há 30 anos haviam efectivamente dezenas de milhares de mulheres em Portugal a praticar abortos nas mais sórdidas condições e milhares delas acabando por morrer ou ficar com sérias sequelas. Nesses tempos já distantes o planeamento familiar dava os primeiros passos entre nós e a contracepção era uma coisa difícil e cara de pôr em prática. Desde então com a enorme facilitação do acesso à pílula e mais tarde ao preservativo, a ocorrência de abortos caiu natural e drásticamente. Por outro lado as condições em que se pratica o aborto clandestino melhoraram por força do generalizado progresso sócio-cultural, independentemente de qualquer juízo moral sobre o mesmo. E, finalmente, perante a notória irritação dos pró-abortistas presentes (passe o abuso de linguagem), ciosos dos seus números catastróficos, este médico estimou o número anual de mulheres mortas em Portugal em consequência dum aborto clandestino, entre uma e duas!!!
E o pasmo aumentou quando este homem sério e incómodo, revelou um facto surpreendente: no final de contas a legislação portuguesa actualmente em vigor é praticamente igual à espanhola tendo esta sido inspirada na nossa!!! Perante a surpresa geral mas não assumida (toda a gente sabia isso afinal, traço tão português) o bom homem lá explicou que em Espanha houve profissionais de saúde que de forma clara e aberta assumiram o risco de praticar abortos ao abrigo da cláusula referente à condição psicológica da grávida criando assim jurisprudência que dá cobertura legal às míticas clínicas de além-fronteira. Ou seja, em Portugal seria legalmente possível fazer o mesmo que em Espanha...extraordinário!!!
Acontece que a malta em Portugal é um bocado maricas: gosta-se de exibir convicções mas não de as pôr em prática de forma aberta. Prefere-se esperar por uma liberalização total para assim não haver nenhum risco. Eu, que me repugna o aborto, acho bom que assim seja...
Mas não é só por isso que chegámos a esta situação ridícula. É que uma parte interessante da nossa esquerda pela-se por uma boa causa, fica-lhe bem na lapela, ajuda à pose vanguardista. E nestes tempos difíceis, causas são cousas que vão rareando. Por isso, há que cuidar das causas que restam, regá-las e adubá-las bem, para que se mantenham, para que mantenham elas a malta animada. Já dizia o grande Sérgio Godinho (ou seria o Zeca Afonso?): o que faz falta é animar a malta!
Mas perguntarão vocês quais são afinal as razões de eu ser contra a liberalização do aborto. Pois. É 6ªfeira, já é tarde, esperam-me em casa, já estou cansado. Fica então para a semana. Mas deixem-me terminar repetindo uma coisa que escrevi em Janeiro, tempo das petições para novo referendo sobre o aborto:

20 boas e verdadeiras razões para se votar sim no referendo do aborto:

Porque é de esquerda
Porque é um direito a mais que conquistamos
Porque é um dever a menos que suportamos
Porque os países civilizados tem
Porque é sinal de modernidade
Porque a Igreja é contra
Porque é mais uma causa
Porque é o principal problema deste país
Porque assim está-se mais à vontade
Porque assim controlo melhor o meu destino
Porque a barriga é minha e só lá está quem eu deixo
Porque já andamos nisto há uma data de tempo
Porque eu choro e os fetos não choram
Porque até fica bem no currículo
Porque me convém
Porque é mainstream
Porque é mais um passo
Porque eu quero
Porque eles não querem
Porque sim


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