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sexta-feira, setembro 24, 2004

Novo Testamento 

Ainda do mesmo livro de que falei há pouco:

Foi assim que o vi uma vez acabar um retrato de mulher. Ela não era nem jovem, nem bela, nem rica, muito ao contrário. Havia porém qualquer coisa de irradiante nos seus olhos, no seu débil sorriso, em todo o seu rosto.
- Ontem - contou-me Assur - estava ao pé da fonte do Profeta, que alimenta uma incipiente nora e que corre de maneira parcimoniosa e intermitente, de modo que se produziam frequentemente desordens quando a torrente se decidia a surgir límpida e fresca. Na última fila estava um velho enfermo que não tinha a menor possibilidade de encher a panela de cobre que estendia a tremer para o bocal. Foi então que a mulher, que tinha acabado de encher a sua ânfora, se dirigiu para o velho e partilhou a sua água com ele. Não era nada. Não passava de um gesto de amizade ínfima entre uma humanidade miserável onde acontecem todos os dias acções sublimes e atrozes. Mas o que é inolvidável foi a expressão desta mulher a partir do momento em que viu o velho até quando o deixou, após ter feito o seu gesto. Trouxe este rosto na minha memória com fervor, depois, recolhendo-me para o guardar vivo dentro de mim o mais tempo possível, fiz este desenho. Está aqui. E que é isto? Um fugitivo reflexo de amor numa existência de amargura. Um momento de graça num mundo implacável. O instante tão raro e tão precioso em que a semelhança contém e justifica a imagem, segundo a expressão de Baltasar.



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