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sexta-feira, setembro 10, 2004

Salvação vs. Revolução  

A apologia do comunismo e da União Soviética pelo Timshel na última TdA levou a que este meu estimadíssimo conterrâneo tenha repescado hoje uma antiga conversa que, em Novembro de 2003 eu e o CC tivemos quando este militava ainda na excelente e saudosa Quinta Coluna. Conversa essa iniciada a propósito de um post sobre Cunhal e Saramago!
Talvez seja então esta a oportunidade que eu vinha esperando para começar a explicar a estes meus amigos e confrades que, ao contrário da sua visão que eles tem vindo a expôr abundantemente na Terra da Alegria bem como nos seus respectivos blogues, eu discordo em definitivo que apenas a ideologia de esquerda seja compatível e coerente com o catolicismo que há em nós.
Isto será certamente assunto não para um mas para vários posts, que irei fazendo conforme me fôr humanamente possível (que saudades tenho da disponibilidade mental e temporal de outros tempos...).
Para começo de conversa e repescando também o que em Novembro eu disse ao CC, devo confessar que, como o Timshel e como o CC, também eu tenho efectivamente admiração pelos comunistas, pela sua honestidade, pela dignidade de homens que lutaram toda uma vida por um ideal que os transcende. Custa-me vê-los aviltados, troçados e menosprezados pelo facto de os seus ideais se terem dissolvido pela sua mera impossibilidade. Sobretudo porque os seus maiores críticos, que estão na Esquerda e não na Direita, teriam sido os primeiros a saudar os amanhãs que cantam se, porventura, eles tivessem mesmo cantado.
Porém, a minha admiração e simpatia tem sobretudo a ver com o facto de neles sentir o ethos do verdadeiro crente: acreditar sem ver, acreditar mesmo que tudo, no mundo e no homem, pareça a desmentir aquilo em que se acredita. Tem a ver também, com o facto de que nos verdadeiros comunistas, tal como nos verdadeiros crentes, a sua fé parece fazer aumentar a sua dignidade, a sua rectidão moral. Como disse na altura o CC: "uma vida impoluta, o trabalho sem cansaço, uma fé sem desânimo, a infalibilidade, a perfeição, a santidade". Claro que há muito comunista que não o é ou foi verdadeiramente, mas sim por razões espúrias ou por mera rotina. Também assim acontece nos cristãos.
Contudo, apesar de tudo isto , a mim a minha Fé não me faz aproximar da Esquerda e suspirar pela Revolução. Isto não soa certamente bem mas a minha Fé não me faz querer tranformar o Mundo. Ou melhor, faz, mas de um modo diferente. O que os comunistas quiseram foi mudar o mundo, mudar a sociedade para então mudar o homem, por forma a que os ideais da justiça, da fraternidade, da igualdade, da felicidade comum, pudessem prevalecer. Mas o homem não mudou, pois não queria mesmo mudar, por razão da sua natureza intrínseca. Por causa deste facto extraordinário e irritante, os émulos de Marx e Engels conceberam e criaram a ditadura do proletariado da qual decorreram naturalmente os gulags e outras práticas que perverteram totalmente o sentido e o objectivo profundos do comunismo.
Ora, na minha modesta opinião, a religião e a Fé não pretendem mudar o mundo. O fim último da religião é sim mudar o homem, mudar cada homem e cada mulher, para assim ser possível a sua salvação, para assim então ser possível um mundo melhor. Pois só mudando os homens em primeiro lugar é que se pode mudar o mundo. Se o meu percurso na Fé me mudar e me aproximar de Deus e, consequentemente, dos outros, se eu fizer minhas as suas dores e as suas alegrias, então sim, estarei a dar a minha contribuição, se calhar a única que me é possível, para mudar o mundo.
É por aqui que eu faço as minhas pontes entre a minha visão do mundo, a minha ideologia, e a minha fé católica. Vou explicar melhor: é através da ênfase na responsabilidade individual por si próprio e pelos outros em detrimento da responsabilidade colectiva por cada um de nós que a transformação desejada por Deus deve iniciar-se. Aliás, penso que a palavra de Cristo foi muito mais dirigida ao coração de cada pessoa do que à multidão. Cristo quis transformar cada coração, todos os corações, para assim elevar a condição humana no seu todo. A transformação da sociedade humana por efeito da palavra de Cristo decorrerá da transformação dos homens. Será uma consequência a que Deus e nós aspiramos. Mas definitivamente não me parece que seja o inverso.
Aliás a questão da responsabilidade individual é para mim absolutamente central nesta questão da esquerda e da direita. Entre os homens haverá sempre uma larga maioria que pretende ver-se livre dela e uma minoria, ambiciosa e voluntarista, que pretende assumi-la toda, sobre si e sobre todos os outros. E passado algum tempo, fatalmente, a noção de responsabilidade degenera em desejo de domínio. A tristíssima história do comunismo na União Soviética foi uma demonstração prática disso mesmo.
É precisamente aqui, neste ponto, que divirjo irremediavelmente da esquerda: para mim a responsabilidade individual (sobre mim e sobre o outro) é absolutamente indeclinável pois o ideal da responsabilidade colectiva serve sempre de pretexto para a outorga da nossa própria responsabilidade a uma entidade (o Estado) que mal controlamos e, muitas das vezes, preferimos nem controlar.
Mas já me estou a estender demais naquilo que pretende ser um primeiro post sobre o assunto. Pretendia para já e apenas, afirmar uma posição. Mais tarde irei tentar explicá-la melhor.
Queria terminar com uma palavra àqueles meus dois amigos: isto será um discurso defensivo e não ofensivo. O que pretendo é demonstrar a fé católica é compatível com a ideologia de direita. Que é compatível com a ideologia de esquerda e mesmo com o comunismo, isso já mo demonstraram vocês.

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