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sexta-feira, outubro 15, 2004

Carta a um amigo 

Caro B.,

Se eu estivesse à tua frente não saberia com certeza o que te dizer. As grandes dores, minhas ou alheias, sempre me deixam silencioso. Contudo, tu escreveste-nos a partilhar essa tua perda. Sinto por isso que, para além das minhas orações, eu deveria dizer-te algo, neste momento.
Sendo um homem de verdadeira Fé, tu sabes que, como disse uma vez um outro grande amigo, o vizinho do mar, não é a morte que nos aproxima da fé; é a fé que nos explica a morte. Tu sabes também que a verdadeira pergunta a fazer não é porquê a nós? mas sim porque não a nós?. Tu sabes isso, como eu o sei. Contudo, subsiste a dor, pela perda, pela ausência, pelo que ficou por fazer ou dizer. Sabemos isso ambos, novos que somos ainda, pois a Morte já nos tocou de perto. A ti, contudo, ela tocou ainda mais perto, a ti ela levou-te o teu Pai, tão demasiado cedo, tão antes de tantas coisas. Daí uma dor maior ainda, daí um porquê? diferente daquele que nos ensina a fé que temos.
Essa tua dor é uma dor que eu ainda não tive mas que, às vezes, como que antevejo, pois grande é o medo de se perder aquilo que se ama. E no meu caso, como no teu, grande é a falta que o meu Pai me faz como também grande será a falta que eu lhe faço a ele. Por isso penso às vezes nisso, nisso em que não quero nem pensar.
Imagino que contigo se deve passar o mesmo que se passa comigo: muito do que eu sou devo-o ao meu Pai por ele ser o que é e por me amar como me ama. Eu sei hoje que amo os meus filhos exactamente com o mesmo amor com que eu e os meus irmão fomos e somos amados por ele. Aquilo que dou é aquilo que dele recebi e recebo. A felicidade dos meus filhos, naquilo que me diz respeito, deve-se assim também ao meu Pai e imagino eu que isso chegará aos meus netos. Que as mães não me entendam mal, mas eu acredito profundamente que o amor paternal se transmite ao longo das gerações. O amor maternal também, com certeza, mas o amor maternal é algo que acredito ser mais intrínseco, mais incondicional, de geração expontânea, sempre renovado de geração em geração. O amor paternal, ou antes, a sua manifestação por essa coisa simples que é a proximidade do pai, é algo que nem sempre ocorre, ou ocorre de forma mais disfarçada pelo ethos masculino. Por isso eu digo que quando existiu por uma vez de forma aberta, esse amor sucede-se pelas gerações.
Mas já estou a divagar. Pois o que eu queria dizer-te era outra coisa. Quando se perde um Pai, pode-se ou não acreditar que ele estará junto de Deus, e que o veremos de novo um dia. Claro que tu e eu acreditamos nisso e tal é uma ajuda preciosa num momento como é este que atravessas. Mas há uma outra coisa, válida para crentes e não crentes, uma coisa incontestável e muitas vezes consoladora: é que quando se perde um Pai ele continua connosco, dentro de nós, na essência do nosso ser. Não o perdemos totalmente pois ele continua em nós.
Era isto que te queria dizer e enviar-te também um forte abraço.


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