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terça-feira, outubro 26, 2004

Globalização e virtudes teologais 

O meu manifesto ideológico na TdA, encontrou naturalmente alguma oposição. O meu amigo Timshel dedicou um post resposta em 24 de Outubro, e temos continuado às “turras” no seu campo de comentários. Por sugestão dele, condenso num post aqui do Guia a minha argumentação em defesa do meu ponto de vista apresentado na TdA de 13 e sobretudo de 20 de Outubro. Uma nota apenas: em toda esta minha argumentação não estou a considerar sequer o caso português. Portugal é um caso distinto na Europa. Aqui nem se pode dizer que existe capitalismo. O que aqui existe são dependências do Estado, proteccionismos discricionários deste, monopólios e oligopólios. Falar de capitalismo português, tal como de welfare state português, isso são abusos de linguagem. O nosso problema aqui não vem nem do capitalismo nem do modelo social. O nosso problema é...mas disso não irei falar!

Camarada Tim,

Aquele meu manifesto na Terra, além de excessivamente longo, talvez não tenha sido suficientemente claro, até porque nele coloquei reflexões que ia fazendo à medida que as escrevia... Em face dos teus (muito aguardados) comentários venho realçar o seguinte:
Eu entendo que o efeito da globalização não vai ser enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres. O que vai fazer é uma redistribuição global da riqueza da qual a Europa vai e está já a saír prejudicada. Deixemo-nos do nosso típico eurocentrismo bairrista: quando falamos de ricos e pobres não devemos referirmo-nos apenas à sociedade do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país, nem sequer do nosso continente. Devemos sim referirmo-nos à sociedade global: ao nosso 1º Mundo, ao 3ºMundo e a um pouco falado 2ºMundo onde vivem incontáveis milhões de pessoas, muito mais pobres do que nós e para onde a economia e ,consequentemente, a riqueza se estão a deslocalizar. Dizes que o meu texto é pessimista mas apenas naquilo que nos toca directamente, pois para toda essa gente, chineses, indianos, indonésios, paquistaneses, europeus de Leste, malaios, etc. para toda essa gente o próximo século será sem dúvida de grande desenvolvimento económico social e humano. Nesses países irá aumentar sem dúvida a justiça social.
E isso pelo simples motivo de que o capitalismo não é tão estupidamente selvagem como tu o dizes. Conforme penso que demonstrei nas duas últimas partes do “manifesto”, o capitalismo vive do consumo. Para haver consumo tem de haver distribuição de riqueza, tem de haver estabilidade laboral, tem de haver bem-estar geral. E não duvido que nessas sociedades do tal 2ºMundo isso virá a acontecer.
Acredita meu caro Tim que o tenebroso capitalismo não está a ir para o Paquistão apenas para explorar as criancinhas. Isso será apenas um aproximação de curto prazo. O capitalismo está mas é a instalar nesses países com enormes populações e bom potencial humano, a sua capacidade industrial para que nesses países surja um forte desenvolvimento económico e surja uma nova e incontável massa de consumidores. Repara bem: assim grosso modo 2,5 bilhões de pessoas contra 250 milhões na Europa Ocidental!
O problema desta globalização é o que vai acontecer aqui na Europa e no 3ºMundo. Aí sim, sou pessimista.
Quanto ao 3ºMundo, aquele que não interessa para nada ao capitalismo, a África sobretudo, o problema é que a Europa vai ter muito menos dinheiro e vontade para os ajudar, enquanto que esses novos países emergentes, que filosoficamente estão muito longe da ética humanista e cristã, duvido muito que se preocupem sequer com esses desgraçados.
Já na Europa, com a fuga da indústria e perda da criação de valor, aumentará o desemprego, as despesas sociais, e penso que com excepção duma reduzidíssima minoria, hoje desconhecida e intangível, detentora do capital das grandes corporações no anonimato das bolsas, todos nós seremos afectados, desde os que estão hoje já abaixo do nível de pobreza às classes médias e até altas. Aqui entre nós, por muito que te custe a crer por aí: em Portugal neste ano de 2004, as classes média-alta e alta já estão também a sentir a crise! Nem acho nada mal...
E digo-te: não há taxas, nem lutas nem retórica inflamada que mude um facto inelutável – vai haver muito menos riqueza para distribuír! Eu gosto de ouvir as tuas imagens do capitalismo ser um lobo selvagem ou uma raposa na capoeira, mas eu penso que essa é uma visão extremamente redutora. O problema essencial é que estes 50 anos de bem-estar tornaram-nos a todos, capitalistas e trabalhadores, em materialistas, egoístas e individualistas. O bem-estar tornou-nos mais gordos e endureceu-nos o coração. Para mim é tão culpado o capitalista que por meia dúzia de patacos fecha uma fábrica para abrir outra na China como o sindicalista que, cego pelo egoísmo corporativo, protesta contra os imigrantes ou que nega a existência dum problema real, dando assim um pretexto excelente para o capital se pirar daqui.
Quanto às leis e regulamentações internacionais, de que falas tanto, sabes bem que as leis se fazem para os países. As leis internacionais tem uma eficácia quase nula. E o problema de que estamos a falar não é um problema nacional nem comunitário, é um problema trans-nacional. Nunca contaremos com a cooperação da China, ou da Índia, ou de nenhum dos outros para os resolver. Eles não vão querer cercear o único instrumento de desenvolvimento que pensam estar ao seu alcance.
A única maneira seria nacionalizar e colectivizar tudo à boa maneira soviética. Ora isso já nós sabemos que não resulta!
Concluo: o paradigma de desenvolvimento económico e humano na Europa está a mudar. O futuro é de empobrecimento em favor do enriquecimento de outras zonas do globo. Agora o que há a fazer é tornar tudo isto menos indolor e o mais partilhado possível entre todos. Só vejo isso ser possível com o reancender do espírito cristão na sociedade civil europeia, um espírito de partilha, de simplicidade, de austeridade, de generosidade. As virtude de que tu falas, a fé, a esperança e a caridade irão ter, espero eu, uma nova e renovada significação.

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